É verdade que os papas conciliares não obrigaram os fiéis a aceitarem o Vaticano II ou exerceram de modo “liberal” suas autoridades?
Nos últimos anos inúmeros católicos, para justificar a recusa ao Vaticano II, usaram como argumento o fato de suas declarações (digo, as feitas pelo Concílio) não serem dogmáticas e sim “pastorais”. Dizem também que os papas conciliares não os obrigam a aderir ao Vaticano II e que nenhuma censura ou condenação jamais recaiu sobre os fiéis que rejeitaram o Concílio.
Mais recentemente alguns foram além e passaram a afirmar também (adaptando a tese de Cassicíaco ao tradicionalismo), que estes mesmos papas conciliares exerciam e exercem seus magistérios de modo “liberal”, que este liberalismo afeta a vontade dos papas, papas estes que jamais tiveram verdadeira intenção de ensinar.
Porém, a boa teologia ensina que se os papas conciliares realmente são verdadeiros papas os fiéis não podem lhes negar obediência. Para tratar da questão vamos colocar abaixo ensinamentos feitos pelos conciliares sobre a obrigatoriedade do Vaticano II, sobre como os papas conciliares encaram o magistério católico e se eles, em algum momento, rechaçaram exercer de maneira liberal os seus magistérios.
Vejamos se os papas conciliares condicionaram a volta dos tradicionalistas a igreja conciliar a aceitação do Vaticano II (e também da missa nova). Vamos colocar os ensinamentos feitos por estas pessoas e deixar que o leitor chegue as suas próprias conclusões (01).
PAULO VI
“Estamos na Igreja, pertencemos a Igreja, somos batizados, somos filhos de Cristo, temos a mesma fé. Quem pertence a esta sociedade que se chama hoje ‘Povo de Deus’, que se chama ‘Comunidade Cristã’, deve saber que esta comunidade é organizada e não pode viver sem a inervação de uma organização precisa e potente que se chama hierarquia. Meus filhinhos, é a hierarquia que vos está falando, o Vigário de Cristo que está hoje diante de vós vos diz isso. Não somos feitos tanto para comandar quanto para servir. Posso pedir-vos, filhinhos, esta graça que certamente não me negareis: amai o Papa! Amai o Papa porque sem seu mérito e certamente sem seu desejo foi lhe dada esta estranha e singular vocação de representar Nosso Senhor. Não olheis para nós, mas para o Senhor que representamos. Estamos a vosso serviço – Paulo VI – Discurso aos fiéis traduzido pelo padre Elílio Júnior (Diocese de Juiz de Fora/MG)
"A presença do Papa, da Cabeça visível da Igreja, acentua esta impressão recordando a todos como existe na Igreja um poder maior, que é a prerrogativa pessoal, que tem autoridade sobre toda a comunidade em nome de Cristo; poder não só puramente externo, mas capaz de criar ou dissolver obrigação interna à consciência; e não já deixado à escolha opcional dos fiéis, mas necessário à estrutura da Igreja; e não deriva dessa, mas de Cristo e de Deus. Será útil, peregrinos ou visitantes que são vós, refletirdes sobre esse aspecto da Igreja Católica, o qual adquire nesta sede a sua mais manifesta expressão (...) Mas todos podem ver que se difundiu bastante em toda parte a mentalidade do protestantismo e do modernismo, negadora da necessidade e existência legítima de uma autoridade intermediária na relação da alma com Deus. ‘Quantos homens entre mim e Deus!’ (Rousseau) exclama a voz famosa de um seguidor dessa mentalidade. E se há falado de religião de autoridade e de religião de espírito, em oposição um ao outro, por identificar na religião da autoridade o catolicismo, e na religião do espírito as correntes do sentimento religioso liberal e subjetivista do nosso tempo, e por concluir que a primeira, a religião chamada da autoridade, não é autêntica e que a segunda deve proceder e realizar por si só, sem vínculo exterior, arbitrário e sufocante. E assim o plausível progresso da cultura moderna, sobre a personalidade humana, acerca da liberdade individual, acerca da primazia moral da consciência muitas vezes conspiram para tal função, ou diminuir a competência, ou a mortificar o prestígio da autoridade religiosa. Se realmente a autoridade religiosa - falamos daquela constitutiva e diretiva da Igreja católica - fosse um poder arbitrário, ou fosse contrário à vida espiritual, ou colocasse vínculos indevidos à consciência, ou até mesmo se concebesse à mesma maneira da autoridade temporal, esta desconfiança, este ressentimento, esta reivindicação de autonomia subjetiva teria razão de ser. Mas vós sabeis que não é. Vós que tendes, e quereis ter o ‘sentido da Igreja’ sabeis muito bem de duas coisas, nesta discussão muito importante. E sabeis, em primeiro lugar, que a autoridade na Igreja, e, portanto, na religião, não se constitui por si só, mas ela foi instituída por Cristo; é o seu pensamento, é sua vontade, é obra sua; e, portanto, antes da autoridade da Igreja, devemos sentir a presença de Cristo. ‘Quem vos ouve, a mim ouve’ (Luc. 10, 16), disse o Senhor. E todas as vezes que se tenta impugnar esta instituição, que é o poder apostólico, tanto de santificação, quanto de magistério e de governo na Igreja, se colide contra a palavra, contra o desejo, contra o amor de Cristo. Sim, até contra o amor de Cristo. Porque a autoridade na Igreja, para ser eficaz, mesmo quando ela é forte e severa, é um instrumento da sua caridade. A autoridade na Igreja é o veículo do dom divino, é serviço de caridade para a caridade; de fato instituída a fim de pôr em exercício a favor da salvação o grande preceito do amor; não é expressão de orgulho, não está para realizar vantagem própria, nem mesmo é uma cópia da autoridade civil, armada com uma espada e vestida de glória. É uma função pastoral, direcionada para condução e para a prosperidade dos outros; e não só não é contrária à dignidade a vitalidade espiritual da alma em que é exercido, mas é instituída para conferir com precisão a sua dignidade e vitalidade espiritual e para garantir a sua luz da verdade divina, para distribuir os seus dons do Espírito, e para assegurar-lhes o caminho certo para Deus” - Paulo VI - Audiência de 04 de novembro de 1964
"Dado o costume geral dos concílios e a finalidade pastoral do Concílio atual, este define que somente devem ser considerados como sendo da Igreja os pontos referentes à fé e à moral claramente declarados por ele. Quanto aos outros pontos propostos pelo Concílio, sendo um ensinamento do Magistério Supremo da Igreja, todos os fiéis devem recebê-los e compreendê-los segundo o próprio espírito do Concílio, como resulta tanto da matéria tratada quanto da maneira pela qual ele se exprime, segundo as regras da interpretação teológica" - Secretariado Geral do Concílio - 16 de novembro de 1964
"Há quem se pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quis atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do Magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de Março de 1964, confirmada a 16 de Novembro desse mesmo ano: dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade. Todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do Supremo Magistério Ordinário" - Paulo VI, Discurso no encerramento do Concílio, 12 - I 1966. Apud Compêndio do Vaticano II, Editora Vozes, Petrópolis, 1969, pg. 31
"Depois da promulgação do Concilio Ecumênico Vaticano II, concluído recentemente, sapientíssimos documentos, tanto sobre questões doutrinais, como disciplinares, para promover eficazmente a doutrina da Igreja, incumbem a todo o Povo de Deus a importante obrigação de lutar com todo empenho para que se realize tudo o que, com a inspiração do Espírito Santo, foi solenemente proposto ou decretado naquele sínodo de Bispos, presidido pelo Romano Pontífice. À Hierarquia compete o direito e o dever de vigiar, dirigir e promover o movimento de renovação que o Concílio começou, de modo que os Documentos e Decretos do referido Concílio recebam uma reta interpretação e sejam levados a efeito com exatidão segundo a força e o sentido dos mesmos. Portanto, esta doutrina deve ser defendida pelos Bispos, já que, como tais, gozam do poder de ensinar com autoridade, unidos à cabeça de Pedro. E digno de elogio que muitos Pastores do Concílio já tomaram a iniciativa de explicá-la convenientemente” - Carta promulgada pela Congregação para a Doutrina da Fé abordando as opiniões errôneas na interpretação dos decretos do Concílio Vaticano II - 24 de julho de 1966
“(...) No necessário, unidade; no duvidoso, liberdade; em tudo, caridade. Primeiro que tudo, a unidade é necessária em guardar religiosamente toda a doutrina transmitida pelo Concílio. A qual, estando aprovada pela autoridade de um Sínodo Ecumênico, pertence já ao magistério da Igreja; e, ademais, no que diz respeito à fé e à moral, ela constitui uma regra próxima e universal de verdade, da qual nunca é permitido aos teólogos divergir no prosseguimento de seus estudos. Mas, quanto à avaliação e a interpretação dessa doutrina, há que cuidar-se de não dissociá-la do restante do patrimônio sagrado da doutrina da Igreja, como se pudesse haver qualquer diferença ou oposição entre os dois. Pelo contrário, tudo o que é ensinado pelo Concílio Vaticano II forma um todo fortemente ligado com o magistério eclesiástico de antes, do qual ele representa a continuação, a explicação e o desenvolvimento” – Paulo VI - Carta Apostólica Cum Iam (02) ao Cardeal Pizzardo (por ocasião do "Congresso Internacional de Teologia do Concílio Vaticano II”, 21 de setembro de 1966, publicado em AAS 58 [1966], 879)
“É importante explorar a impressão espiritual suscitada a este respeito nos visitantes do Papa. A impressão espiritual mais comum - a vossa, nós pensamos - é aquela característica do fiel católico em relação ao Magistério da Igreja, ou seja, aquela de uma consolante confiança. O fiel católico sabe que o Senhor deu aos Apóstolos o mandato e autoridade para ensinar o que Ele mesmo havia ensinado; incumbiu-os de serem os transmissores da sua Palavra; ele sabe que esta Palavra está relacionada com o plano da salvação: o acolhimento de tal Palavra, ou seja, a fé, é condição fundamental para essa admissão à fortuna do reino de Deus; ele ainda sabe que essa transmissão acontece mediante uma assistência misteriosa e eficaz do Espírito Santo, Aquele que ensina aos Apóstolos e à Igreja para «toda a verdade» (Jn 16,13) relativo ao nosso tratamento sobrenatural com Deus; e sabe que tal transmissão se cumpre com aquela fidelidade rigorosa e garantia do único e estável sentido da mensagem divina, que se chama tradição (...) Nós esperamos que esta seja também a vossa experiência pessoal neste encontro com a sede principal do magistério eclesiástico. É assim para todos? Infelizmente não. Hoje por qualquer dentro da Igreja, de muitos que o são e não fiéis, e de muitos que estão por volta, mas estranhos, se observa com reserva, com desconfiança ao magistério eclesiástico. Ao magistério eclesiástico se deseja mais que qualquer outra coisa se reconhecer hoje como algum ofício de confirmar a "crença infalível da comunhão dos fiéis"; outros, discípulos de uma doutrina que negam o magistério da Igreja, reconheceriam a capacidade dos fiéis em interpretar as Escrituras livremente, de acordo com suas próprias intuições, os quais sustentam ser facilmente inspirados. A fé torna-se, assim, aparentemente fácil, porque cada um a modela como melhor deseja, mas perde a sua autenticidade, a sua segurança, a sua real verdade, e, portanto, a sua urgência de ser comunicada; torna-se uma opinião pessoal” – Paulo VI - Audiência de 11 de janeiro de 1967
“Hoje fazemos esta pergunta: como se chega à fé ? Não apenas a um sentimento religioso, a um vago conhecimento de Deus e do Evangelho, mas a uma adesão da mente e do coração à Palavra divina, à verdade revelada por Cristo e ensinada pela Igreja. É uma pergunta fácil e igualmente importante. Foi São Paulo quem primeiro a formulou, dando-lhe imediatamente uma resposta. Na carta que escreveu aos romanos, interroga: «como hão-de acreditar n'Aquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes prega ? E como pregarão, se não forem enviados?» (Rom 10, 14-15). E acrescenta: fides ex auditu (Ibid 17) — a fé depende da pregação, e a pregação, da Palavra de Cristo. Mas a pregação, por sua vez, exige um mandato, uma investidura, uma missão (cfr. Cornely, Lagrange, h. 1, I). Deste modo, compreendem-se o conceito e a importância da evangelização, da atividade pastoral e da atividade missionária. São conceitos familiares, também no nosso tempo. Considerados em relação ao nascimento perene dos membros da Igreja, adquirem toda a sua grandeza e função específica. A Igreja nasce da Igreja docente, e não de si mesma como tal. Melhor, a Igreja nasce de Cristo, que envia os seus apóstolos, com a missão de salvar os homens por meio da sua palavra e da sua graça. Eles foram as primeiras testemunhas diretas oculares: «O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos» (1 Jo 1, 3). Deve-se notar que o canal da verdade da fé é o Apóstolo, digno de respeito pela sua experiência pessoal, e autorizado pela sua investidura missionária. Depois dele, vêm, um atrás do outro, os que propagam pela terra e transmitem à história o mesmo testemunho, que já não é imediato, mas mediato (cfr. Santo Agostinho, In Ep. Joannis ad Parthos, 1, 2, 3, em: PL 35, 1979-1980). Deste fato deduzem-se duas características essenciais do desígnio de Cristo, relativo ao anúncio do seu Evangelho de salvação: a ciosa fidelidade textual do anúncio e o encargo distintivo e qualificativo, conferido à sucessão apostólica, de o guardar, propagar, defender, explicar e, numa palavra, ensinar. Isto mostra que a Igreja possui em si mesma um órgão que a instrui, que lhe garante a genuinidade de pregação da Palavra de Deus, um magistério hierárquico que gera o Povo cristão (do qual ele também faz parte, mas com uma função providencial de poder, como os olhos em relação ao corpo). São Paulo, comparando a sua função geradora e vivificadora de mestre com a de todas as outras vozes da cultura cristã e profana e sobrepondo-a a estas vozes, afirmava, ao escrever aos coríntios : «Porque, ainda que tenhais dez mil pedagogos em Cristo, não tendes, todavia, muitos pais, pois fui eu que vos gerei em Cristo Jesus, por meio do Evangelho» (1 Cor 4, 15). E aos gálatas dizia: «De novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós» (Gál 4, 19). E, como para sublinhar a causalidade eficiente, embora ministerial, da sua missão de mestre, não chama «irmãos», como fazia habitualmente, os seus interlocutores, mas «filhos meus caríssimos» (1 Cor 4, 14) ou «filhinhos meus» (Gál 4, 19). Entre Cristo e os cristãos insere-se um poder docente: o magistério hierárquico. A consciência, por si mesma, é incapaz de nos levar ao conhecimento da realidade das coisas e da moralidade das ações. Além disso, no campo da fé, ou por outras palavras, no das verdades reveladas, a consciência, sozinha (salvo no caso de especialíssimos carismas místicos), não pode orientar a mente do fiel. A fé objetiva não é uma opinião pessoal, mas uma doutrina estável e delicada, que se funda, como dissemos, no rigoroso testemunho de um órgão qualificado, o magistério eclesiástico, intérprete e transmissor, não arbitrário, mas escrupuloso, da fé. Por este motivo, Santo Agostinho — citemo-lo mais uma vez — escreveu : «Eu não teria fé no Evangelho se para tanto não me movesse a autoridade da Igreja» (Contra Manicheos, V, em: PL 42, 176; cfr. Lumen Gentium, n. 25). Faz eco a estas palavras a seguinte afirmação de um teólogo contemporâneo: «A consciência do fiel recebe da autoridade do magistério eclesiástico, como o mais precioso dos dons, uma segurança infalível nas verdades morais fundamentais»” - Paulo VI - Audiência Geral de 15 de Abril de 1970
"É bem verdade que, hoje, da parte de algumas pessoas, o carácter de «serviço» da autoridade da Igreja se acentuou tanto que se podem manifestar duas perigosas consequências na concepção constitutiva da própria Igreja: a de atribuir uma prioridade à comunidade, reconhecendo-lhe poderes carismáticos eficientes e próprios, e a de menosprezar o aspecto potestativo na Igreja, com acentuado descrédito das funções canônicas na sociedade eclesial, donde nasceu a opinião de uma liberdade indiscriminada, de um pluralismo autônomo, e uma acusação de «juridismo » à tradição e à praxe normativa da Hierarquia. Perante estas interpretações, que não correspondem fundamentalmente aos desígnios de Cristo e da Igreja, queremos recordar ainda hoje que a autoridade, ou seja, o poder de coordenar os meios aptos para alcançar o objectivo da sociedade eclesial, não é contrária à efusão do Espírito no Povo de Deus, mas sim veículo e guarda..." - Paulo VI - Discurso aos membros da Sacra Rota Romana em 28 de Janeiro de 1971
“Há quem deseje que a autoridade eclesiástica, como acontece hoje em muitas sociedades civis, provenha da base, de modo que a hierarquia já não encontre a sua explicação e o seu poder na ordem estabelecida por Cristo, mas no mandato da comunidade, como se a hierarquia, tendo por finalidade o serviço do povo cristão, estivesse também, por origem, ao seu serviço, e fosse buscar no mesmo povo a sua autoridade, como acontece nas democracias modernas. Há até quem pretenda contestar a necessidade e a legitimidade de uma hierarquia, de um ministério humano revestido de poder divino, como se a relação com Cristo não tivesse necessidade de uma mediação canônica pastoral (cfr. 1 Cor 4, 1 ss.; Ef 3, 7 ss.). A autoridade, que, de per si, é sempre difícil, tornou-se hoje, para muitos, um «sinal de contradição» (Lc 2, 34). Não pretendemos, agora, principalmente nós, fazer a apologia da autoridade, da hierarquia e da estruturação comunitária orgânica. Vós conheceis, certamente, os seus títulos de origem divina e o seu coerente desenvolvimento tradicional. Quem desejasse confirmar o próprio pensamento com uma boa cultura histórica, ainda válida, poderia encontrar um ótimo alimento na famosa obra de Pierre Batiffol, traduzida também em italiano, e, agora, reeditada e atualizada com um belo prefácio do Cardeal Jean Daniélou. Tem por título «A Igreja nascente e o catolicismo» (Valsecchi, Firenze 1971)” - Paulo VI - Audiência Geral de 25 de Agosto de 1971
"(...) Se lança o descrédito sobre a autoridade da Igreja em nome de uma tradição sobre a qual se atesta meramente respeito verbal e material; os fiéis se afastam tanto dos laços de obediência à Sé de Pedro quanto dos seus legítimos bispos, sendo a autoridade de hoje rejeitada em nome da autoridade de ontem. E o fato é ainda mais grave, posto que a oposição da qual falamos não é apenas encorajada por alguns sacerdotes, mas liderada por um bispo, por nós sempre venerado, Mons. Marcel Lefebvre (...) É dolorosíssimo notá-lo, mas como poderíamos deixar de ver nessa atitude, seja lá qual for a intenção dessas pessoas, um colocar-se fora da obediência e da comunhão com o sucessor de Pedro, e portanto, da Igreja? (...) Pois esta é, infelizmente, a consequência lógica quando se afirma ser preferível desobedecer, sob o pretexto de manter intacta a própria fé, trabalhando a sua maneira para a preservação da Igreja Católica, ao mesmo tempo em que nega a obediência efetiva. E o faz abertamente! Se ousa afirmar que o Concílio Vaticano II não é vinculante, que também a fé estaria em perigo por causa das reformas e diretrizes pós-conciliares, que é preciso desobedecer para preservar certas tradições. Quais tradições? É este grupo - e não o Papa, não o Colégio Episcopal, nem o Concílio Ecumênico - que determina quais dentre as inúmeras tradições devem ser consideradas como norma de fé! Como vemos, veneráveis irmãos, esta é a atitude que se coloca como juiz daquela vontade divina que colocou Pedro e seus legítimos sucessores como Cabeça da Igreja para confirmarem os irmãos na fé e alimentarem o rebanho universal, que o estabeleceu como guardião e garantidor do depósito da Fé (...) E isso é ainda particularmente mais grave quando se introduz a divisão onde [nós nos congregamos em Cristo por Amor], na Liturgia e no Sacrifício Eucarístico, rejeitando o respeito pelas normas litúrgicas. É em nome da Tradição que nós exigimos a todos os nossos filhos e a todas as comunidades católicas celebrarem a liturgia segundo o rito renovado com dignidade e fervor. O uso do Novus Ordo não está de modo nenhum deixado à discricionariedade dos sacerdotes e dos fiéis (...) A Instrução de 14 de Junho de 1971 provisionou que a celebração da Missa segundo o rito antigo somente se pode permitir, com a permissão do Ordinário, a sacerdotes velhos ou enfermos, quando celebrem sem ninguém presente. O Novus Ordo se promulgou para substituir o Vetus Ordo depois de madura deliberação e para cumprir as decisões do Concílio. É exatamente da mesma maneira que nosso predecessor São Pio V tornou obrigatório o missal reconhecido por sua autoridade debaixo do Concílio de Trento. Pela mesma autoridade suprema que Nós recebemos de Cristo, Nós DECRETAMOS a mesma pronta obediência a todas as demais reformas, sejam litúrgicas, disciplinares ou pastorais que nos anos recentes emanaram dos decretos do Concílio. É com profunda amargura, mas com paternal esperança, que nos dirigimos mais uma vez ao nosso confrade Monsenhor Marcel Lefebvre, e aos seus colaboradores, os convidando a pensar nas graves advertências de Cristo sobre a unidade da Igreja (cf. Jo 17, 21ss.) e sobre a obediência devida ao legítimo Pastor do rebanho universal nomeado por ele, como sinal da obediência devida ao Pai e ao Filho (cf. Luc. 10, 16). Esperamos por eles com o coração aberto, com os braços prontos a abraçar: que saibam redescobrir na humildade e na edificação, para a alegria do Povo de Deus, o caminho da unidade e do amor!” - Paulo VI - Consistório para nomeação de 20 cardeais - 24 de maio de 1976
“Infelizmente, a posição que você tomou é a de um antipapa (...) Eu sei que sou um homem pobre. Mas aqui não é a pessoa que está em jogo: é o Papa. E você julgou o Papa como infiel à Fé da qual é o supremo guardião. Talvez esta seja a primeira vez na história que isso acontece. Você disse ao mundo inteiro que o Papa não tem fé, que ele não crê, que ele é modernista e coisas do tipo. Eu devo, sim, ser humilde. Mas você está numa posição terrível. Você realiza atos, perante o mundo, de extrema gravidade (...) Você foi informado verbalmente e por escrito muitas vezes que estava errado e por que estava errado. Você nunca quis ouvir. (...) Todos os dias trabalhamos com grande esforço e com igual tenacidade para eliminar determinados abusos, não conformes com a lei vigente da Igreja, que é a do Concílio e da Tradição. Se você tivesse se esforçado para ver, compreender o que eu faço e digo todos os dias para garantir a fidelidade da Igreja ao ontem e à correspondência com o hoje e o amanhã, não teria chegado a esse doloroso ponto em que se encontra. Somos os primeiros a deplorar os excessos. Somos os primeiros e os mais preocupados em encontrar um remédio. Mas esse remédio não se pode encontrar em um desafio à autoridade da Igreja. Escrevi isso repetidas vezes. Você não levou em conta as minhas palavras” (...) Procure voltar à ordem. Como pode considerar-se em comunhão conosco, quando toma posições contra a Igreja?” (...) Você disse e escreveu isso. Que eu seria um Papa modernista. Aplicando um Concílio Ecumênico, eu teria traído a Igreja. Você compreenderá que, se fosse assim, eu teria que renunciar; e convidar você para ocupar o meu lugar para dirigir a Igreja”. (...) Sofremos profundamente por isso [com a crise na Igreja]. Você contribuiu para piorá-la com sua solene desobediência, com seu desafio aberto contra o Papa” (...) O Direito Canônico o julga. Você já se deu conta do escândalo e dos danos que causou na Igreja? Você está ciente disso? Gostaria de apresentar-se assim diante de Deus? Faça um diagnóstico da situação, um exame de consciência e depois se pergunte, diante de Deus: o que devo fazer? (...) Está consciente de que está indo diretamente contra a Igreja, contra o Papa, contra o Concílio Ecumênico? Como pode se adjudicar o direito de julgar um Concílio? Um Concílio, depois de tudo, cujas atas, em grande parte, foram assinadas também por você. Rezemos e reflitamos, subordinando tudo a Cristo e sua Igreja. (...) Faça uma declaração pública, com a qual retira suas recentes declarações e recentes comportamentos, dos quais todos têm notícia como atos não para edificar a Igreja, mas para dividi-la e prejudicá-la" - Palavras de Paulo VI dirigidas a Dom Lefebvre durante audiência realizada no dia 11 de setembro de 1976
“Certamente, nem tudo o que foi dito no Concílio demanda um assentimento da mesma natureza; somente o que é afirmado como objeto de fé ou verdade ligada à fé, por atos definitivos, requer um assentimento de fé. Mas o resto é também uma parte do solene magistério da Igreja o qual todos os fiéis devem receber com confiança e aplicar com sinceridade” – Carta de Paulo VI para Dom Lefebvre em 10 de novembro de 1976
JOÃO PAULO II
"Junto a esta infalibilidade das definições ex-cathedra existe o carisma da assistência do Espírito Santo concedido a Pedro e seus sucessores para que não cometam erros em matéria de fé e de moral, e para que, pelo contrário, iluminem bem o povo cristão. Este carisma não se limita aos casos excepcionais mas abarca, em medida diferente, todo o exercício do magistério. (...) De outra forma o Concílio Vaticano II, falando sobre a verdade que é preciso ensinar, recorda: 'O Romano Pontífice e os bispos, por razão de seu ofício e pela importância do assunto, trabalham zelosamente com os meios oportunos para investigar adequadamente e para propor, de uma maneira apta, esta Revelação' (Lumen Gentium, 25). É uma indicação de sabedoria que se reflete na experiência dos procedimentos seguidos pelos papas e pelos dicastérios da Santa Sé a seu serviço, ao cumprir as tarefas do magistério e do governo dos sucessores de Pedro" - João Paulo II - Audiência Geral proferida no dia 24 de março de 1993
BENTO XVI
"(...) realizei este ato de paterna misericórdia porque estes prelados me tinham manifestado várias vezes seu vivo sofrimento pela situação em que se encontravam"(...) [que] este meu gesto seja correspondido pelo compromisso solícito por parte deles de dar os ulteriores passos necessários para realizar a plena comunhão com a Igreja, testemunhando assim verdadeira fidelidade e verdadeiro reconhecimento do magistério e da autoridade do Papa e do Concílio Vaticano II" - Bento XVI - Audiência Geral - 29 de janeiro de 2009 [estas palavras foram proferidas por Bento XVI por ocasião das tratativas envolvendo a volta da FSSPX a igreja conciliar após levantar as excomunhões dos quatro bispos ordenados por Dom Marcel Lefebvre em 1988, sem mandato pontifício]
NOTAS
(01) Alguns dos ensinamentos de Paulo VI usados neste texto foram extraídos daqui;
(02) Paulo VI nesta afirmação repete o seguinte ensinamento do Papa Pio XII encontrado na Encíclica Humani Generis:
“E embora este Sagrado Magistério deva ser para qualquer teólogo a regra próxima e universal de verdade em matéria de fé e de moral (pois Cristo Senhor Nosso lhe confiou todo o depósito da fé – Sagrada Escritura e tradição divina – para guardá-lo, defendê-lo, interpretá-lo), contudo por vezes é ignorado como se não existisse o dever que têm os fiéis de fugir também daqueles erros que, em maior ou menor medida, se aproximam da heresia, dever portanto de ‘observar as constituições e decretos com os quais essas falsas opiniões foram proscritas e proibidas pela Santa Sé’ (…) Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam per se o assentimento, sob o pretexto de que os Pontífices não exercem nelas o poder de seu Supremo Magistério. Tais ensinamentos fazem parte do Magistério Ordinário, para o qual também valem as palavras: ‘Quem vos ouve, a mim ouve’ (Lc 10,16), além do que, quanto vem proposto e inculcado nas Encíclicas pertence já, o mais das vezes, por outros títulos, ao patrimônio da doutrina católica” – Papa Pio XII – Encíclica Humani Generis
(03) Destaco agora algumas das palavras ditas por Dom Lefebvre após ouvir palavras tão contundentes ditas por Paulo VI:
“Não sou contra o Concílio, mas apenas contra alguns de seus textos (...) Temos de escolher entre o que disse o Concílio e o que disseram os seus Predecessores (...) Parece-me que abrindo um pouco o leque de possibilidades para fazer hoje o que se fazia no passado, tudo se ajustaria. Essa seria a solução imediata. Como disse, não sou o líder de nenhum movimento. Estou pronto para ficar trancado para sempre no meu seminário. As pessoas entram em contato com meus sacerdotes e saem edificadas. São jovens que têm o sentido da Igreja: são respeitados na rua, no metrô, em todos os lugares. Os outros sacerdotes não usam mais o hábito talar, não confessam mais, não rezam mais. E o povo escolheu: esses são os sacerdotes que queremos (...) Não digo que tudo seja negativo. Eu gostaria de colaborar na construção da Igreja”.
Comentário: beira o inacreditável. Por que Dom Lefebvre não repetiu, na frente de Paulo VI, aquilo que ele havia dito com tanta clareza nos últimos anos? Por que ele se acanhou tanto? Por que ele disse não ser contra o Vaticano II, mas somente contra alguns de seus textos?
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