Teria o sedevacantismo caducado?
“No fim do mundo (a Igreja) terá aparência de caducidade” - Santo Agostinho
Amigos, salve Maria.
Iremos responder, neste trabalho, a algumas afirmações feitas no texto intitulado Sedevacantismo, uma ideia caduca. Primeiro, o autor
escreve:
“(...) Os sedevacantistas acreditam que a
doutrina ensinada pelo Concílio é herética e que o Paulo VI por ter promulgado
este concílio também foi herético e por tanto deixou de ser Papa. Uma das
crenças capitais entre sedevacantistas é a de que um Papa que se torna herege,
perde ipso facto o seu pontificado”.
Ao contrário do que possa parecer, esta
questão envolvendo o Papa cair, ou não, de seu cargo ipso facto por
heresia não é tão importante no momento atual. Ela é importante, mas nem tanto.
O que importa mesmo é a doutrina relacionada ao alcance da infalibilidade papal. Mas independente disso eu destaco o ensinamento feito por Santo Afonso
de Ligório, que na obra A Autoridade do Romano Pontífice assim
se expressou:
“(...) a resposta é que só a heresia
pode tornar o Papa incapaz de cumprir suas funções; de modo que, se o Papa é um
herege, não é que o Concílio seja superior ao Papa (como ele pode ser
superior ao Papa se o Papa não existe?), mas então o Concílio declara que o
Papa caiu do pontificado, porque por professar uma falsa doutrina ele não pode
mais ser um doutor da Igreja” – Santo Afonso de Ligório – A Autoridade do
Romano Pontífice [1842] – página 48
Santo Afonso ensina que um Papa
verdadeiro jamais cairá em heresia; porém, concedendo que caia, cairá somente
privadamente, e a partir deste momento ele, sem nenhum tipo de declaração,
estará destituído de seu cargo. Também defenderam esta doutrina São
Roberto Belarmino, São Francisco de Sales, Ballerini, Naz, Billot, Sylvius,
Melchior Cano, Cônego Boulanger, Wernz-Vidal e muitos outros, sendo este o
verdadeiro ensinamento comum dos teólogos e canonistas a respeito deste tema.
Além destes autores, a mesma doutrina pode ser encontrada no cânone 188/4
do CIC de 1917 (cânone este que tem como fonte a Bula Cum Ex Apostolatus Officio)
e está implicada pelo Papa Leão XIII na Encíclica Satis Cognitum e por muitos outros Sumos
Pontífices (até mesmo comentaristas do novo Código de Direito Canônico de 1983
dizem que este Código ensina que o Papa cai, ipso facto de seu
cargo, em caso de heresia manifesta).
A verdade é que o peso da
autoridade está maciçamente neste entendimento. Feito este apontamento,
vamos continuar insistindo que é a doutrina relacionada ao alcance da
infalibilidade papal aquilo que realmente importa neste momento. Tal doutrina
se resume nisso que foi ensinado pelo Padre Tanquerey:
“Esta infalibilidade consiste em que a
Igreja num juízo doutrinal nunca possa estabelecer uma lei universal
que seja contrária à fé, aos bons costumes e à salvação das almas... (no
entanto) em lugar algum foi prometido à Igreja um sumo grau de prudência para
promulgar as melhores leis para todos os tempos, lugares e circunstâncias” -
Tanquerey: Theol. Dogm. Fundamentalis, n. 932
Eu penso que, na maior parte dos casos,
os sedevacantistas não acreditam que Paulo VI caiu de seu cargo após o Vaticano
II, mas que ele nunca fora validamente eleito. Porém, realce-se, se o foi, ele
caiu de seu cargo ao aprovar o Vaticano II, que é obra de Satanás operada por
seus instrumentos humanos. Um Papa verdadeiro, ainda que privadamente
herege, seria impedido pelo Espírito Santo de aprovar tanta maldade.
Por isso que o alcance da
indefectibilidade papal é a doutrina que realmente nos interessa, por isso que
aquilo que realmente importa é o que um Papa pode ou não fazer em seu governo,
sendo ele o mais santo dos papas ou um Papa supostamente desviado. A doutrina
da infalibilidade papal, quando bem compreendida, nos leva a constatar
racionalmente que os papas conciliares não são papas legítimos porque aquilo
que eles fazem e ensinam não pode ser feito e ensinado por verdadeiros
papas.
Continuando, após falar sobre o "papa
herege", o autor do texto afirma que os sedevacantistas negam a
visibilidade e a perfeição da Igreja. Ele argumenta que a Igreja é provida de
órgãos hierárquicos e que ela “pode ser encontrada por quem quer que deseje
encontrá-la”. Parece que o que ele quer dizer é o seguinte: “como os
sedevacantistas não conseguem apontar um bispo no mundo com jurisdição
ordinária eles então negam, na prática, a visibilidade e a perfeição da
Igreja”.
Antes de refutar esta tolice,
conceda-se que o argumento referente a “visibilidade da Igreja” é o mais forte
que existe contra o sedevacantismo (aliás, é o único que realmente causa
dificuldade e merece atenção maior, sendo o mais difícil de se lidar). Porém,
dificuldade não significa contradição e nem negação da doutrina católica. O
sedevacantismo tem dificuldades, mas não nega jamais a doutrina católica, ainda
que hoje os sedevacantistas não possam apontar um bispo válido com jurisdição
no mundo.
Como fica, então, esta questão? Nos
limitamos a responder, com argumentos retiradas da sã teologia, que basta:
a) compreender que a fé não
exige que os fiéis saibam onde está este bispo e o apontem, exige
apenas que afirmemos que ele existe e que está presente neste mundo;
b) demonstrar que nosso interlocutor
também não consegue apontar, atualmente (ano de 2023) um único bispo com
jurisdição ordinária no mundo que dê visibilidade a Igreja da forma como a
Igreja entende esta visibilidade.
VERDADEIRA VISIBILIDADE
A visibilidade da
Igreja significa, basicamente, que ela pode ser identificada no mundo como a
verdadeira Igreja que transmite a doutrina ensinada por Cristo. É o que ensina
Silvester Berry, um dos mais proeminentes do seu tempo quando o assunto é
escatologia:
“Quando dizemos que a Igreja de Cristo
é visível, queremos dizer, primeiramente, que é uma sociedade de homens com
ritos e cerimônias externos e toda a maquinaria externa do governo pela qual pode
ser facilmente reconhecida como uma verdadeira sociedade. Mas
nós ainda sustentamos que a Igreja de Cristo também tem certas marcas pelas
quais ela pode ser reconhecida como a única Igreja verdadeira fundada
por Cristo quando Ele comissionou os apóstolos para converter todas as
nações. Em outras palavras, afirmamos que a Igreja de Cristo é formalmente
visível, não apenas como uma sociedade conhecida como Igreja Cristã, mas
também como a única Igreja verdadeira de Cristo” - The Church of Christ, - An Apologetic and
Dogmatic Treatise [A Igreja de Cristo, Tratado Apologético e Dogmático].
Herder, Saint Louis & Londres, 1927 & 1941, p. 69.
Portanto, “visibilidade” significa possuir, exteriormente, ritos, cerimônias e governo que fazem com que a Igreja seja facilmente reconhecida como a verdadeira e única sociedade fundada por Cristo. Logo, para que essa visibilidade seja verdadeira, esta sociedade precisa possuir ritos, cerimônias e doutrinas que estejam de acordo com a sã doutrina.
Neste sentido se manifesta Joseph Mors em seu consagrado
“Institutiones Theologiae”, onde realça que esta sociedade identificável
transmitirá corretamente, até o fim dos tempos e por meio dos
sucessores dos Apóstolos, a verdadeira doutrina cristã:
"Cristo quis que a Igreja permanecesse substancialmente incorruptível até o final do mundo; e assim o quis por causa da subsistência de todas aquelas coisas sem as quais a Igreja não poderia manter-se. Tais coisas que fazem a essência da Igreja são: o magistério, o regime e o sacerdócio apostólico. Logo é essencial que os fiéis professem a doutrina de Cristo transmitida e defendida pelos Apóstolos, e isso para que obedeçam ao regime ordenado por Cristo; que se santifiquem mediante as coisas instituídas por Cristo e atendam à tradição Apostólica. Porque Cristo prometeu expressa e verbalmente ao Colégio Apostólico um sempiterno e eficaz auxilio. Logo, pela vontade de Cristo sempre existirá, até o fim do mundo, legítimos sucessores dos Apóstolos que também transmitirão aquelas coisas ordenadas por Cristo" - Joseph Mors - Institutiones Theologiae (pg. 86)
Perguntamos: de acordo com a sã doutrina, será que a igreja conciliar, que possui hierarquia herética e ritos heretizantes, pode dar verdadeira visibilidade a Igreja?
A verdade é que, para que a visibilidade exista ordinariamente, é necessária que a fé verdadeira seja ensinada de fato não apenas pelo colégio apostólico, mas também, e principalmente, pelo Papa que o governa:
"(...) Essa autoridade viva e
infalível está naquela Igreja que foi construída por Cristo, o Senhor, sobre
Pedro, Cabeça, Príncipe e Pastor da Igreja universal, cuja fé, por
promessa divina, nunca falhará, mas sempre e sem intervalo durará nos legítimos
pontífices que, descendentes do próprio Pedro e colocados em sua
Cátedra, também são herdeiros e defensores de sua própria doutrina, dignidade,
honra e poder" - Papa Pio IX - Encíclica Qui Pluribus (9 de Novembro de
1846)
Notem que a verdadeira fé “sempre e sem
intervalo durará nos legítimos pontífices”. Logo, é impossível que os papas
conciliares sejam verdadeiros sucessores de Pedro, pois que não possuem a
verdadeira fé. Caso eles fossem realmente papas, se seguiria que tivemos papas
com verdadeira fé até Pio XII e aí teríamos um intervalo de alguns papas sem fé
para então voltarmos a termos um Papa ortodoxo novamente algum dia. E se isso
acontecesse, Pio IX teria ensinado erroneamente que jamais haveria um hiato de
fé entre um Papa e outro.
E neste mesmo sentido nos ensina o Papa
Bento XV:
“O divino fundador da Igreja confiou a
Pedro, Príncipe dos Apóstolos, unido a Deus por uma fé imune a todo o
erro como 'cabeça do coro apostólico' e mestre e guia de todos os
homens, a missão de cuidar do rebanho daquele que fundou Sua Igreja na
autoridade do magistério visível, perpétuo e seguro do próprio
Pedro e de seus sucessores” - Papa Bento XV - Encíclica Principi Apostolorum Petro – 1920
A fé de Pedro apresentada em seu
magistério visível é “imune a todo o erro”. Estes ensinamentos derivam do fato
de o Papa ser “o instrumento forte e efetivo da salvação" (Papa Leão
XIII). O resultado disso tudo? A cátedra de Pedro sempre permaneceu “imune de
todo erro” (Concílio Vaticano I). Na prática, no dia a dia dos fiéis, isso se
dá de uma forma que os papas não possam jamais promulgar algo que vá contra o
bem final dos fiéis a quem ele se dirige:
“Os Romanos Pontífices são infalíveis
ao fazer leis universais sobre a disciplina eclesiástica, de modo que jamais
estabeleçam qualquer coisa contra a fé e os bons costumes, embora não
atinjam o supremo grau de prudência” - Wernz e Vidal - Manuel... t. I, p 2
Será que o autor do texto a quem nos
dirigimos subscreve tais ensinamentos? Será que ele repete, com galhardia
exacerbada como nós, parafraseando Pio IX, que a fé de Pedro, por promessa
divina, nunca falhará? Será que ele faz suas as palavras do Papa Bento XV,
repetindo e subscrevendo em todas as suas letras o ensinamento que diz que a fé
de Pedro é imune a todo o erro? Ou tergiversará bradando sofismas que ofendem
ouvidos pios e que só podem enganar os incautos? Verborragia nunca foi
argumento, já deveria saber nosso interlocutor. As respostas a estas perguntas
por parte deles são bem desejáveis, e que não deixe de observar o que ensinou
Nosso Senhor: "seja o vosso falar 'sim, sim, não não', porque o
que passar disso vem do maligno".
Nosso interlocutor entende que a igreja conciliar, com seus ritos falsos e doutrina
luciferina, dá visibilidade verdadeira para a Igreja. Sobre isso, vale a pena um
comentário: não digo que a falsa igreja conciliar não possa dar alguma
visibilidade para a Igreja verdadeira, porque uma falsificação pode confundir
os fiéis e leva-los a pensar que estão diante de uma joia rara, mas ainda assim
aqueles que sabem que aquilo não passa de uma falsificação tem o dever de
exteriorizar ao mundo esta situação. Tais pessoas esclarecidas devem,
necessariamente, apontar ao maior número de fieis enganados que aquela coisa
satânica diante deles não é a joia verdadeira, e jamais apresentar tal
falsificação como algo real, o que seria pecado mortal ou até algo mais
sério.
E o mais importante: será que nosso
interlocutor pode apontar um único bispo no mundo com, inequivocamente,
jurisdição ordinária ensinando a verdadeira fé, o que equivale a ensinar tudo o
que foi ensinado de Pedro a Pio XII, rejeitando publicamente o Vaticano II, a
missa nova, todas as encíclicas e demais documentos pós-conciliares? Ou irá nos
apontar somente papas e bispos “de vitrine”, fantasiados de clérigos mas que,
na verdade, são lobos impostores a serviço das trevas, e que sendo assim não
podem dar a verdadeira visibilidade a Igreja?
Estas respostas seriam bastante
desejáveis da parte do autor do texto a quem nos dirigimos. Se puder responder,
que o faça logo.
VISIBILIDADE ESSENCIAL E ACIDENTAL
São Roberto Belarmino, no Volume II de
sua obra “Disputas sobre a Fé Cristã”, lista as marcas que acompanham a
verdadeira Igreja de Cristo no mundo. Ele ensina que a quarta marca da Igreja
“é a amplitude ou a multidão e variedade dos crentes”. Eis como a questão é
colocada pelo Santo Doutor:
“(...) Em segundo lugar, note-se com
Agostinho, que para a Igreja ser católica não se requer que ela esteja
em todos os lugares do mundo inteiro, mas apenas que seja conhecida de
todas as províncias, e que frutifique em todas elas, de modo que em todas as
províncias alguns sejam da Igreja. Pois, antes que isso aconteça, não virá o
dia do Senhor, como é evidente de Mateus 24. Em terceiro lugar, note-se com
Driedo, que não se requer que isso aconteça simultaneamente, de modo que a um
só tempo, em todas as províncias, necessariamente deva haver alguns fiéis. Com
efeito, é suficiente que aconteça sucessivamente. Disso se segue
que, se uma província somente retivesse a fé católica, a Igreja ainda
poderia ser chamada verdadeira e propriamente de católica, contanto
que se demonstrasse claramente que ela é una e a mesma com aquela que ouve em
algum tempo, ou diversas em todo o mundo; assim como agora, qualquer diocese é
chamada católica, por ser contígua às outras que perfazem uma só Igreja
Católica” (São Roberto Belarmino – Disputas sobre a Fé Cristã (Volume II) –
Livro IV (As Marcas da Igreja) - Capítulo VII (pg. 395 [Editora CDB])
Ou seja, se uma única província
eclesiástica localizada no recôncavo mais escondido do planeta retiver a fé
católica com um único bispo, a visibilidade da Igreja está mantida e as
promessas de Cristo estão garantidas. Tal visibilidade é essencial à existência
da Igreja e não pode desaparecer nem por um segundo, mas o fundamental desta
questão é entender que ela não tem nada a ver com o tamanho da Igreja aos olhos
do mundo, com sua vistosidade, como sugere nosso interlocutor. Confundir as
duas situações equivale a não distinguir uma camisa de uma
camisa-de-força.
A visibilidade não significa que a
Igreja “pode ser encontrada por quem quer que deseje encontrá-la”. Ora, um fiel
pode estar em algum país do mundo sabendo que a Igreja se encontra no mundo,
mas ele mesmo sendo impedido de encontrá-la, apesar de seu desejo, e isso pelas
vicissitudes dos tempos. Já vivemos situações assim no passado e nada nos
garante que não possamos vivê-las novamente no tempo presente. Pelo menos é o
que nos ensina o Reverendo John MacLaughlin em um manual do início do século
XX:
“Concedemos, ademais, que pode ter
havido ocasiões no passado (e tais intervalos podem ocorrer no futuro) quando,
pela oposição de antipapas e uma variedade de circunstâncias adversas, foi
difícil para os indivíduos por aquele momento determinar onde a
verdadeira fonte de ensinamento autoritativo poderia ser encontrada. Isso,
porém, não muda o estado da questão no mais mínimo que seja; a única verdadeira
Igreja ainda estava em algum lugar do mundo do mesmo jeito, e
em plena posse de todas as prerrogativas essenciais dela, ainda que, durante um
momento contingente – por causas transitórias – ela possa não ter sido
facilmente discernível ao menos observador. Assim como já houve tempos em
que uma densa fumaça ou neblina tornou impossível ao observador
ordinário dizer o local exato que o sol ocupava no céu, muito embora todos
soubessem que ele estava lá em algum lugar, e soubessem também que ele
logo voltaria a tornar a localização exata de sua presença visível para todos,
e que, assim que a neblina se dissipasse, os raios dele viriam direto para a
terra novamente, e todos veriam que ele permanecia identicamente o mesmo astro
luminoso que antes brilhava” - The Divine Plan of The Church [O Plano Divino da
Igreja], subintitulado: “Where Realised, and Where Not” [Onde Se Encontra, e
Onde Não], de autoria do Rev. John MacLaughlin, Burns & Oates, London,
1901; capítulo VI, sobre a indefectibilidade, págs. 93-94
Devastador, sim? Sabemos que no
principio, assim que Nosso Senhor foi crucificado, a Igreja já era visível,
mesmo que minúscula e desconhecida. Ninguém negará que no Sábado Santo a Igreja
já era visível universalmente em seus 11 apóstolos escondidos em uma sala,
inacessíveis aos fiéis e sem um Papa para lhes reger. E nada na doutrina
católica nos garante que não voltaríamos ao Sábado Santo algum dia, nada no
mundo nos garante que, em algum momento, após a Igreja contar com milhares de
bispos ao redor do planeta, esta mesma Igreja não poderia passar a contar
novamente com 11, ou até mesmo com um número menor. E nada nos garante que
fiéis poderiam procurar a Igreja e não encontra-la, ainda que sabendo que ela
existe e que está presente em algum lugar do mundo.
No passado Deus permitiu confusão
prolongada entre católicos acerca de quem era realmente o Papa verdadeiro, e
hoje encontramos a mesma confusão em grau maior; porém, esta diferença é
somente de grau, não de essência.
ESCATOLOGIA
Para entendermos como é possível nos
encontrarmos nesta situação terrível, é preciso buscar auxilio na escatologia,
que é a ciência teológica que trata dos acontecimentos relacionados ao fim dos
tempos, ou seja, aquelas situações que devem acontecer antes da volta de
Cristo. Escatologia não é “profetada” de especialistas entediados que não
sabem o que estão falando ou que escrevem artigos caducos contra aqueles que
defendem a verdadeira fé. Contrariamente, é a doutrina católica que diz
respeito à Igreja e ao mundo inteiro antes do julgamento final.
Sobre isso os Santos Doutores e os
teólogos afirmam, substancialmente, que no fim dos tempos uma multidão de fiéis
apostatará a ponto de esta situação significar um sinal identificável da
chegada do anticristo (que precede a vinda de Cristo). E vão além, falando de
uma falsa religião que substituirá a verdadeira aos olhos do mundo.
Vejamos somente alguns destes
ensinamentos e os comparemos com a realidade vivida atualmente. Comecemos
pelo capítulo 13 do livro de Apocalipse, onde São João nos diz que, no fim
dos tempos, o demônio venceria os santos, ainda que provisoriamente. Destaco
somente os versículos 07 e 08:
"Foi-lhe dado, também, fazer
guerra aos santos e vencê-los. Recebeu autoridade sobre toda
tribo, povo, língua e nação, e hão de adorá-la todos os habitantes da terra,
cujos nomes não estão escritos desde a origem do mundo no livro da vida do Cordeiro
imolado"
O Revmo. Padre Sylvester Berry assim
explicou a questão:
"É uma questão histórica que os
períodos mais desastrosos para a Igreja foram quando o trono papal
estava vago, ou quando os antipapas contendiam com o legítimo chefe
da Igreja. Assim também será naqueles dias maus que virão. A
Igreja privada de seu pastor principal deve buscar um santuário na
solidão para ser guiada pelo próprio Deus durante aqueles dias difíceis. Este
lugar de refúgio preparado para a Igreja é provavelmente alguma nação, ou
nações, que permanecem fiéis a ela. Naqueles dias a Igreja também
encontrará refúgio e consolo nas almas fiéis, especialmente no isolamento
da vida religiosa. São Miguel, o anjo da guarda da Igreja, virá com suas hostes
para defendê-la contra os ataques de Satanás e seus asseclas. Os seguidores de
São Miguel são as hostes angelicais do céu e todos os bispos fiéis e
sacerdotes da Igreja. Os asseclas de Satanás são os anjos caídos com os
líderes da heresia, cisma e perseguição. A batalha é travada na Igreja, o reino
dos céus, de onde o dragão e seus anjos são expulsos e lançados à terra. A
terra simboliza as nações hostis à Igreja,— o mundo que Satanás governa. Com a
ajuda de São Miguel, a Igreja se purificará de todos os hereges,
cismáticos e apóstatas. [...] Conforme indicado pela semelhança com um
cordeiro, o [falso] profeta provavelmente se estabelecerá em Roma como
uma espécie de antipapa durante a vacância do trono papal mencionada
acima. Mas os eleitos não se deixarão enganar; eles se lembrarão
das palavras de Nosso Senhor: 'Então, se alguém vos disser: Eis que Cristo está
aqui ou ali, não lhe deis crédito'" — Pe. E. Sylvester Berry - The Apocalypse of Saint John - 1921 (Parte II,
Capítulo 12 - pg. 124 - 135)
E o mesmo Padre Sylvester, porém em outra obra:
“As profecias do Apocalipse mostram que Satanás imitará a Igreja de Cristo para enganar a humanidade; ele montará uma igreja de Satã em oposição à Igreja de Cristo. O Anticristo assumirá o papel do Messias; o profeta dele fará o papel do Papa, e haverá imitações dos Sacramentos da Igreja. Haverá também falsos prodígios em imitação dos milagres feitos na Igreja (...) não parece haver razão alguma pela qual uma Igreja falsa não possa tornar-se universal, e mesmo mais universal do que a verdadeira, ao menos por um tempo" - Rev. Pe. E. Sylvester Berry, D.D. The Church of Christ, An Apologetic and Dogmatic Treatise, [A Igreja de Cristo, Tratado Apologético e Dogmático] Herder, Saint Louis & Londres, 1927 e 1947, p. 119 e 155)
Já em 1938 o Missal de Dom Gaspar Lefebvre assim se referia aos momentos atuais, citando Santo Agostinho:
"(...) Jesus termina sua vida com o sacrifício do Gólgota, logo seguido do triunfo de sua Ressurreição; e a Igreja, bem como sua divina Cabeça, se verá então vencida e cravada na cruz, embora ela ganhará a vitória decisiva. 'O corpo de Cristo, que é a Igreja, assim como o corpo humano, foi jovem num tempo, embora no fim do mundo terá uma aparência de caducidade' (Santo Agostinho)” - versão castelhana do Missal de Dom Gaspar Lefebvre
Lembramos que “caducar” em Direito
Romano significa “extinguir”. Logo, Santo Agostinho está dizendo que, no fim
dos tempos, parecerá que a Igreja Católica foi extinta do mundo. E agora o
Bispo Fulton Sheen:
“Estamos vivendo nos dias do
Apocalipse – os últimos dias de nossa era...As duas grandes forças do
Corpo Místico de Cristo e do Corpo Místico do Anticristo estão começando a
traçar as linhas da batalha para uma disputa catastrófica.
O Falso Profeta terá uma religião sem
cruz. Uma religião sem um mundo por vir. Uma religião para destruir as
religiões. Haverá uma igreja falsificada. A Igreja de Cristo será
uma só, mas o Falso Profeta criará a outra. A falsa igreja será
mundana, ecumênica e global. Será uma federação dispersa de igrejas e
religiões formando algum tipo de associação global, – o parlamento mundial de
igrejas. Será esvaziado de todo conteúdo divino e será o corpo místico do
Anticristo.
O corpo místico na Terra hoje terá seu
Judas Iscariotes e ele será o falso profeta. Satanás o recrutará entre os
nossos bispos. O Anticristo não será assim chamado; caso contrário,
ele não teria seguidores. Ele não usará calças vermelhas, nem vomitará enxofre,
nem carregará um tridente, nem exibirá uma cauda como Mefistófeles em Fausto.
Essas máscaras ajudaram o Diabo a convencer os homens de que ele não existe.
Quando nenhum homem o reconhecer, mais poder ele exercerá. Deus se definiu como
“Eu sou quem sou”, e o Diabo como “Eu sou quem não sou”.
Em nenhum lugar das Sagradas Escrituras
encontramos justificado aquele mito popular que retrata o Diabo como um bufão
que está vestido de “vermelho”; pelo contrário, ele é descrito como um anjo
caído do céu, como “o príncipe deste mundo”, cujo negócio é dizer-nos que não
existe outro mundo. Sua lógica é simples: se não há céu, não há inferno; se não
há inferno, então não há pecado; se não há pecado, então não há juiz, e se não
há juízo, então o mal é bom e o bem é o mal. Mas acima de todas essas
descrições, Nosso Senhor nos diz que ele será muito semelhante a Si mesmo, e que
ele irá enganar até mesmo os eleitos – e certamente nenhum diabo jamais visto
em livros ilustrados poderia enganar até mesmo os eleitos. Como ele virá nesta
nova era para conquistar seguidores de sua religião?
A crença russa pré-comunista é
que ele virá disfarçado como um grande humanista; ele falará
em paz, prosperidade e abundância não como meio de nos conduzir a Deus, mas
como fim em si mesmos…Na terceira tentação em que Satanás pediu a Cristo para
adorá-lo e todos os reinos do mundo seriam d’Ele, se tornará a tentação de ter
uma nova religião sem cruz; uma liturgia sem um mundo por vir; uma
religião para destruir uma religião; ou uma política que é uma religião – que
dá a César até as coisas que são de Deus.
No meio de todo seu aparente amor pela
humanidade e de sua eloquente fala de liberdade e igualdade, ele
terá um grande segredo que não dirá a ninguém: ele não acredita em Deus. Porque
sua religião será fraternidade sem a paternidade de Deus, ele vai enganar até
mesmo os eleitos. Ele vai erguer uma contra-igreja que será um arremedo
da Igreja, porque ele, o Diabo, é o arremedo de Deus. Ela terá
todas as notas e características da Igreja, mas totalmente esvaziada
de seu conteúdo divino. Será um corpo místico do Anticristo que, em todos os
aspectos externos, se assemelhará ao corpo místico de Cristo"
- Fulton J. Sheen - Communism and the Conscience of the West -
Bobbs-Merril Company, Indianapolis, 1948, pp. 22-25
E sobre a apostasia dos fiéis no fim
dos tempos, temos ainda palavras interessantes feitas pelos comentaristas
da Bíblia de Douay-Rheims:
“As igrejas consagradas ao Deus
verdadeiro são tão reduzidas em número, que são representadas por São João
como uma única Igreja; seus ministros celebram o ofício em um
altar; e todos os fiéis verdadeiros são tão poucos, em respeito à
totalidade da humanidade, que o evangelista os vê reunidos num só
templo, para apresentar as suas adorações ao Altíssimo” – Comentário
católico sobre o Apoc. 11:1-2, versão Haydock católica inglesa da Bíblia de
Douay-Rheims
Tudo isso colocado significa que
atualmente a visibilidade essencial da
Igreja não é complementada pela acidental. Esta visibilidade acidental, se
plenamente existente, facilitaria ao católico identificar a estrutura visível.
Porém, ela não é essencial para a visibilidade verdadeira da Igreja. Cabe ao
nosso interlocutor, portanto, demonstrar o contrário do que afirmamos,
colocando ensinamentos feitos por autoridades da Igreja a respeito do assunto.
MARCAS DA IGREJA
Indo além da questão que envolve a visibilidade da Igreja, vejamos
outras marcas que nos possibilitam identificar a
verdadeira Igreja fundada por Jesus Cristo. Vejamos se tais marcas
podem ser aplicadas a igreja conciliar, para que saibamos se ela é, como defende
nosso interlocutor, a Igreja Católica Apostólica Romana, fora da qual ninguém
se salva.
Na obra "Disputas sobre a Fé Cristã", São Roberto
Belarmino ensina que a segunda marca da Igreja é a antiguidade (Capitulo V),
sua terceira marca é a duração longa e jamais interrompida (Capitulo VI), a
sexta marca é a concordância com a Igreja antiga no que se refere a doutrina
(Capítulo IX), a sétima marca é a união dos membros entre si com a cabeça
(Capítulo X) e a oitava marca é a santidade da doutrina (Capítulo XI, onde é
ensinado que a Igreja é chamada santa porque "a sua profissão (de fé) é
santa, não contendo nada de falso quanto a doutrina da fé, e nada de injusto
quanto à doutrina dos costumes" realçando que esta Igreja Católica
verdadeira não ensina “nenhum erro” e nem mesmo “nenhuma torpeza").
Já a nona marca da verdadeira Igreja é
a eficácia da doutrina (Capítulo XII). Tudo isso porque, na definição do Santo
Doutor feita alhures, a Igreja “é uma assembleia de homens unida pela profissão
de fé cristã e pela comunhão dos mesmos sacramentos, sob o regime de pastores
legítimos, e sobretudo do único vigário de Cristo na terra, o Romano
Pontífice” (São Roberto Belarmino – Disputas sobre a Fé Cristã (Volume II)
– Livro III (A Igreja Militante difundida por toda a Terra) - Capítulo II (pg.
256 [Editora CDB])
Perguntamos: será que na igreja
conciliar podem ser encontradas estas notas da verdadeira Igreja, garantindo
assim que ela, a igreja conciliar, seja a verdadeira que garante a verdadeira
visibilidade ao corpo de Cristo? Será que a igreja conciliar possui as marcas
da “antiguidade” e da “duração longa e jamais interrompida”, ela que foi gerada
no Vaticano II? Será que a igreja conciliar concorda com a Igreja antiga
no que se refere a doutrina? Será que na igreja conciliar podemos constatar a
união dos membros com a cabeça? O autor que nos ataca e que ora refutamos
obedece a Francisco ou reprova seu falso pontificado? Será que encontramos
santidade na doutrina da igreja conciliar? Será que nesta mesma doutrina não
encontramos nada de falso?
Será que esta mesma doutrina conciliar
é eficaz para salvação das almas dos fiéis e para a conversão dos pecadores?
Porque se a resposta for “não” a todas estas questões, não estamos
diante da Igreja verdadeira que gera verdadeira visibilidade no mundo. O
resumo da conversa é que identificar os modernistas da nova igreja com a
hierarquia católica verdadeira não faz nada em prol da visibilidade da Igreja
Católica, mas antes, simplesmente, mantém a visibilidade de uma igreja herética.
Assim, a verdadeira visibilidade e indefectibilidade da verdadeira Igreja acaba
sendo destruída por esta a teoria que identifica a hierarquia modernista com a
Igreja Católica.
CONCLUSÃO
Antes de encerrarmos, afirmamos a existência, hoje, de uma hierarquia católica com jurisdição ordinária. Afinal, isso é uma necessidade pela nota da apostolicidade da Igreja, que requer sucessão material e formal até o fim dos tempos, o que significa que sempre haverá possibilidade de a Igreja eleger um sucessor de Pedro, e que este sucessor de Pedro sempre ensinará catolicamente. Afirmamos, simultaneamente, que a hierarquia católica com jurisdição ordinária sempre ensina o que é santo, bom e verdadeiro.
A verdade é que, dito tudo isso, o sedevacantismo é
uma realidade que se impõe a qualquer pessoa que compreende e aceita a doutrina
da indefectibilidade papal tal como foi definida pelo Concílio do Vaticano
(1869-1870). Não são poucos os ensinamentos feitos nos últimos dois mil
anos demonstrando que o Papa, quando exerce seu Magistério e quando versa sobre
matérias relacionadas à disciplina eclesiástica e aos costumes, não pode
ensinar nada que vá contra o bem final dos fiéis a quem se dirige, mesmo que
tais ensinamentos não sejam revestidos pela infalibilidade positiva
(promulgações ex-catedra [que podem se dar de maneira solene ou não] ou
ensinamentos caracterizados como Magistério Ordinário e Universal).
São Francisco de Sales, Doutor da
Igreja, ensina que o Papa não pode conduzir os fiéis ao erro:
“(...) o Pastor não pode
conduzir ao erro seus filhos; portanto, os sucessores de São Pedro têm
todos seus mesmos privilégios, que não são anexos à pessoa, mas à
dignidade e ao cargo público” - São Francisco de Sales - Controvérsias, p. II,
cap. VI, art. XIV
Não por acaso, por tudo isso e muito
mais, reconhecer um Papa legítimo significa obedecer-lhe:
"(...) ninguém está nesta única Igreja de Cristo e ninguém nela permanece a não ser que, obedecendo, reconheça e acate o poder de Pedro e de seus sucessores legítimos" - Papa Pio XI - Encíclica Mortalium Animos
Desta forma, quem desobedece ao Papa não o reconhece. Mas para sermos mais específicos: quem desobedece ao Magistério de um Papa, quem não aceita integralmente um Concílio aprovado por um Papa, quem afirma que uma missa aprovada por um Papa não é católica, não aceita aquele Papa. É cismático, e talvez, dependendo da circunstância, herege.
Por isso finalizamos com mensagem enviada pelo Papa Pio IX ao nosso
interlocutor, na esperança que ele possa reavaliar suas atitudes e abandonar
seus erros nefastos:
“De que adianta proclamar
altissonantemente o dogma da supremacia de São Pedro e seus sucessores? De que
adianta repetir incessantemente declarações de fé na Igreja Católica e de
obediência à Sé Apostólica quando as ações desmentem essas belas
palavras? Ademais, a rebelião não é tornada ainda mais indesculpável pelo
fato de a obediência ser considerada um dever? Novamente, a autoridade da Santa
Sé não se estende, como sanção, as medidas que nós fomos obrigados a tomar, ou
basta estar em comunhão de fé com esta Sé sem acrescentar a submissão de
obediência, coisa que não pode ser sustentada sem ferir a Fé Católica? Na
realidade, Veneráveis Irmãos e Filhos amados, trata-se de reconhecer o poder
(desta Sé), mesmo sobre suas próprias igrejas, não somente no que concerne à
fé, mas também no que concerne à disciplina. Quem
negar isso é herege; quem reconhecer isso e obstinadamente
recusar-se a obedecer é digno de anátema” - Papa Pio IX, Encíclica Quae in Patriarchatu - 1º de setembro de
1876, ao clero e fiéis do rito caldeu
Estaria nosso interlocutor
anatematizado? Durma-se com um barulho destes.
Que Deus abençoe a todos e que Nossa Senhora quebre os corações mais endurecidos.
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