Pode a inteligência humana conhecer a realidade das coisas e alcançar a certeza objetiva?
Não adianta debater nada se antes não se souber as espécies de certezas que a inteligência humana pode alcançar. Neste sentido, seguem trechos de ensinamentos retirados do Manual de Apologética do Cônego Boulanger (a partir da página 19).
O PROBLEMA DA CERTEZA
Problema a ser investigado: pode a inteligência humana conhecer a realidade das coisas e alcançar a certeza objetiva? E, sendo a razão o principal instrumento daquele que investiga os fatos, qual é o seu valor para chegar à verdade? Podemos confiar nela? Poder-nos-á conduzir à certeza?
O que é a certeza?
R.: Certeza é o estado da mente que está intimamente persuadida de possuir a verdade. Estar certo é, portanto, formular um juízo, que exclui totalmente a dúvida e o temor de errar.
Existem graus de certeza?
R.: a certeza não admite graus: ou é, ou não é, pois por menor que seja o temor de errar se ele existe desvanece-se a certeza e se dá lugar à opinião ou à dúvida. Contudo, é possível distinguir algumas espécies de certezas.
Quais as espécies de certeza?
R.: segundo a natureza das verdades que atinge, temos:
a) a certeza metafísica, que se funda na relação necessária entre os termos do juízo. Quando digo que "o todo é maior que a parte" o atributo convém de tal modo ao sujeito que é impossível conceber o contrário. Ao formularmos um juízo destes a nossa inteligência não só não admite a possibilidade de dúvida mas afirma ser absurda a hipótese contrária (e que sequer se pode concebê-la);
b) a certeza física, que se baseia na constância das leis do universo. Só a experiência pode nos dar esta certeza. Assim, quando dizemos que "os corpos tendem a cair para o centro da terra" julgamos que a proposição contrária é falsa por contradizer os fatos até então observados, mas não absurda, porque as leis poderiam ser de outro modo;
c) a certeza moral, que se funda no testemunho dos homens (quando este se apresenta com garantias de verdade). As verdades históricas e as religiosas são objeto da certeza moral.
Quais os modos de conhecimento da certeza?
R.: podemos chegar à certeza de modo imediato, direto ou intuitivo, quando ela se se apresenta à inteligência sem o intermédio de outra verdade. Como exemplo citamos a afirmação “o todo é maior do que a parte”. E também podemos chegar à certeza de modo mediato, indireto ou discursivo, quando a conhecemos indiretamente por meio de raciocínio. Como exemplo citamos a afirmação “a soma dos ângulos dum triângulo é igual a dois retos”.
O que significa, em filosofia, o dogmatismo?
R.: o dogmatismo é o sistema filosófico que afirma que a razão humana pode conseguir a certeza e que esta corresponde à realidade das coisas, isto é, que as nossas ideias são verdadeiramente objetivas. A inteligência humana pode chegar à certeza objetiva em várias matérias pois, tendo sido dotados de uma alma feita para a verdade, seríamos os seres mais infelizes da criação se caíssemos necessariamente no erro ou se nunca estivéssemos certos de não nos enganar.
Em matéria religiosa, podemos também atingir a certeza?
R.: sim, em matéria religiosa podemos atingir a certeza.
De qual espécie é a certeza religiosa?
R.: a certeza religiosa é de ordem moral. Questões como existência de Deus e da alma, a relação de Deus com o mundo, etc., são tão complexas e estranhas à experimentação direta que a solução destes problemas não se manifesta com evidência matemática e por conseguinte requer em nós disposições morais.
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