Será que Revelação Divina consiste somente naquelas coisas contidas nos livros bíblicos?



Fontes da Divina Revelação

Padre Gabriel Maria Rodrigues


É muito conhecida aquela doutrina protestante a despeito de que a Divina Revelação consiste tão somente na Revelação Escrita, ou seja, na Sagrada Bíblia. Mas, será que Revelação Divina consiste somente naquelas coisas que contém nos livros que compõe a Bíblia? 

Segundo os Luteranos e protestantes em geral, Testemunhas de Jeová e seguidores de semelhantes seitas, somente as Sagradas Escrituras contem a Divina Revelação e, por isso, segundo essas seitas, a Igreja Católica falha ao sustentar que a Tradição também faz parte da Revelação. 

Há uma citação do Evangelho de São João onde a impossibilidade da toda a Revelação entrar em livros é divinamente revelada e posta por escrito:

“Muitas outras coisas há que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever”  (Io. 21, 25).

Esse argumento seria suficiente. Mas para que abunde e brilhe a verdade, vejamos outro aspecto interessante desse assunto. Em várias ocasiões as Escrituras fazem alusão a alguns ensinamentos do Divino Salvador, porém não expõe essas doutrinas. Para não exceder-nos, vejamos apenas três exemplos:

“Ora muitos Samaritanos daquela cidade creram em Jesus, por causa das palavras daquela mulher, que dava testemunho: ‘Ele disse-me tudo o que tenho feito’. Vindo, pois, ter com Ele os Samaritanos, pediram-Lhe que ficasse lá. E ele ficou lá dois dias. E muitos mais creram nele em virtude das suas palavras” (Io. 4, 39 – 41).

“E Jesus percorria toda a Galileia ensinando nas sinagogas, e pregando o Evangelho do reino de Deus, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo” (S. Mat. 4 -23,24).

“Na primeira narração, ó Teófilo, falei de todas as coisas que Jesus começou fazer e ensinar, até o dia em que, tendo dado preceitos por meio do Espirito Santo aos Apóstolos que tinha escolhido, foi arrebatado (ao céu); aos quais também se manifestou vivo, depois da sua Paixão, com muitas provas (de que vivia), aparecendo-lhes por quarenta dias, e falando do reino de Deus” (Atos 1 – 1-3).

Nas citações acima, vemos nas partes destacadas que Nosso Senhor Jesus Cristo ensina, prega e exorta; porém, também observamos que as palavras que compuseram essas doutrinas pregadas e exortadas não encontram-se escritas na Bíblia. 

Quem se atreveria a dizer que essas palavras carecem de transcendência? Seria uma grande impiedade afirmara-lo, porque somente Cristo tem palavras de vida eterna (S. Jo. 6 – 68); além disso, todas as palavras que saem da boca do Divino Salvador são divinas letras, porque a boca fala da abundância do coração (S. Mat 12 -34); ora, o Coração de Jesus é Sagrado e Divino, logo a torrente de suas palavras inundam sempre de divindade. 

Então esses discursos e sermões foram omitidos por negligencia do Autor Sagrado? Afirmar isso implica outra impiedade além de um duplo erro. Primeiramente seria acusar de “omisso” não o hagiógrafo1, senão o Divino Espirito Inspirador que infundia na mente do escritor as coisas que ele devia deixar escrito. O segundo erro consiste que desacreditar um dos motivos de credibilidade das Sagras Escrituras que é o feito da impossibilidade que o hagiógrafo possa equivocar-se ou queira enganar, pois afirmar que um escritor sagrado se equivocou numa parte é comprometer seus escritos num todo.

Tudo isso nos leva a seguinte conclusão: há algumas palavras de Cristo que não se encontram nas Sagradas Escrituras. Tudo o que Cristo disse é necessário para nossa santificação e salvação. Logo, se queremos alcançar a nossa salvação devemos escutar e aceitar e colocar em prática todas as palavras de Cristo.

Agora cabe perguntar: onde encontramos essas palavras de vida eterna que faltam na Revelação Escrita? Na Divina Revelação que foi transmitida verbalmente pelos Apóstolos e Discípulos, que chama-se comumente “Tradição oral” ou “Tradição da Igreja” ou somente “Tradição”.

Negar a Tradição oral é renunciar aquelas palavras ditas por Jesus Cristos que não foram escritas pelos hagiógrafos. Negar essa conclusão é negar toda ciência logica e renunciar a toda sensatez religiosa. 

Mas não acaba por aí. Não é somente a lógica e a sensatez que comprova a veracidade da citada “Tradição”, pois o mesmo Divino Mestre nos manda escutá-la dizendo aos seus discípulos: ‘o que vos ouve, a mim ouve’ (S. Luc. 10 - 16). E depois da Ressurreição, Nosso Senhor Jesus Cristo envia a seus Apóstolos ao mundo para convertê-lo inteiramente à Fé Verdadeira. Vejamos agora com quais palavras Cristo envia a seus Apóstolos.

Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei. (S. Mat. 28, 19-20).

Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura (S. Mar. 16, 15).

Analisemos as palavras que aqui nos convém considerar nessas passagens evangélicas:

“...ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei”. 

Vemos a Cristo exortar os Apóstolos para que doutrinassem o mundo com todas as coisas que foram mandadas por Ele. Todas, sem exceção. Ora vemos acima que nem todas constam nos Sagrados livros. Logo a totalidade da doutrina de Cristo deve vir de outra fonte. Onde, pois, encontramos o resto da doutrina senão na Tradição Oral Apostólica?

   “...pregai o Evangelho...” O que é pregar? Segundo o dicionário Aurélio: Pronunciar sermões, preconizar, louvar. Ensinar, sob a forma de doutrina. Vociferar. 


    Pois bem, a ordem foi (como claramente percebe-se) um doutrinamento por via oral. Senão teria sido assim a ordem:Ide por todo o mundo, imprimindo e vendendo Bíblias”.

Iluminados pelo Espirito Santo os Apóstolos escreveram livros históricos pastorais e um profético. Mas isso não quer dizer que somente o que eles escreveram consiste a Revelação Divina, pois como acabamos de provar, a mesma consiste nas Sagradas Escrituras e na Tradição. Mesmo porque, se a revelação consistisse somente no que está escrito levaria e outro erro duplo:

I. “só houve certa e verdadeira revelação depois de Moisés”. Errado! Porque este profeta foi o primeiro a receber o divino encargo de escrever a História Sagrada; pois bem, se só há verdadeira revelação naquela que está escrita e toda tradição oral é tradição de homens, em que consistem as Revelações feitas a Adão, Abraão, Isaque, Jacó? Nenhum deles escreveram nada. Foi por meio da Tradição Oral (movida pela Divina Inspiração, obviamente) que Moisés chegou ao conhecimento de coisas que aconteceram séculos e também milênios antes que nascesse.

II. o mesmo pode-se dizer do Novo Testamento. “Só houve certa e verdadeira Revelação depois de São Mateus”. Errado! O primeiro a escrever a história de Jesus Cristo, ou seja, o primeiro Evangelista foi São Mateus que compôs seu livro entre os anos 40 e 50 da era cristã. Voltamos a perguntar: se a Revelação consiste tão somente nas coisas que estão escritas, e não na Tradição Oral, a Revelação esteve descansando pelo menos treze anos antes de ser comunicada, já que entre a Ascensão de Cristo e a composição do primeiro livro evangélico conta mais de uma década? Claro que não.

Portanto, negar a importância e o caráter de doutrina divina da Sagrada Tradição leva a negação do que implicitamente entende-se na Revelação Escrita, como provamos acima.

Nossa intenção ao elaborar este singelo trabalho foi provar por meio das Escrituras Sagradas a veracidade da Tradição. Mas nunca está demais relembrar que a Igreja Católica Apostólica Romana é a guardiã da Revelação, Escrita e Oral, e não há quem, conhecendo um mínimo de história universal, possa negar. Foram os sábios católicos os que, por meio de um estudo perpetrado durante séculos, formularam e definiram, confirmados pelos Sumos Pontífices, a autenticidade da divina inspiração dos livros que compõem a Sagrada Bíblia.




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