E se os papas conciliares forem verdadeiros papas, seriam os sedevacantistas cismáticos?

Os sedevacantistas acreditam que, desde pelo menos o Vaticano II, aqueles que aos olhos do mundo são verdadeiros pontífices da Igreja Católica na verdade não passam de impostores, falsos papas a serviço de Satanás. 

Por conta desta posição tais fiéis são tidos como “cismáticos” (01) por muitos católicos. Raciocinam os detratores da seguinte maneira: como os papas conciliares são legítimos sucessores de Pedro aqueles que os rejeitam só podem ser cismáticos!

Desta forma fica a pergunta: e se, hipoteticamente, os papas conciliares forem realmente papas? E se os sedevacantistas estiverem errados, seriam eles verdadeiramente cismáticos, de acordo com a aplicação correta da doutrina? 

Deixemos que respondam esta questão alguns dos especialistas aprovados pela Igreja: 

“Se alguém, por um motivo razoável, tem por suspeita a pessoa do Papa e rechaça sua presença e inclusive sua jurisdição não comete delito de cisma e nem nenhum outro, desde que esteja disposto a aceitar ao Papa se ele não for suspeito. Você tem o direito de evitar o que é prejudicial e de evitar os perigos (…)” - Tommaso de Vio Cardenal Cayetano O.P. Commentatarium in II - II, 39, 1. Citado en: Catéchisme Catholique de la Crise dans l’Eglise, Mayo 2008, Abbé Matthias Gaudrom FSSPX 

“(...) Não podem ser considerados entre os cismáticos aqueles que se recusam a obedecer o Romano Pontífice por considerar a sua pessoa suspeita ou, tendo em conta os rumores em circulação, duvidosamente eleito” (F.X. Wernz e P. Vidal - Ius Canonicum, 7:398, 1943). 

“Não há cisma se (…) se recusa a obediência na medida em que (…) se suspeita da pessoa do Papa ou da validade de sua eleição (…)” (Pe. Ignatius Szal, Communication of Catholics with Schismatics, Catholic University of America, 1948, p. 2). 

“Tampouco é alguém um cismático por negar a sua sujeição ao Pontífice com base em ter dúvidas solidamente fundamentadas concernentes à legitimidade da eleição dele ou ao poder dele [referências a Sanchez e Palao]” (De Lugo, Disputationes Scholasticae et Morales, De Virtute Fidei Divinae, Disp. XXV, Sect.III, nn. 35-8). 

“Na medida em que uma lei contém as expressões seguintes: (se alguém) presume, ousa, conscientemente, deliberadamente, temerariamente, expressamente ou outras semelhantes (por exemplo pertinaciter (…) toda diminuição de responsabilidade da parte da inteligência ou da vontade exime das penas latae sententiae (c. 2229§2) seja qual for a causa dessa diminuição: ignorância (grave ou leve), intoxicação, falta de diligência necessária, fraqueza de espírito” (...) “Conforme o c. 1325§2 devemos considerar…como cismático quem recusa submeter-se ao Papa…; mas o delito…de cisma não pode atingir senão atos exteriores (públicos ou ocultos); gravemente culpáveis (portanto também interiores) e, se se trata de heresia (ou mesmo de cisma), acompanhados de obstinação…Admite-se comumente que a ignorância supina e crassa impede o delito de heresia e parece pode-se dizer o mesmo em se tratando da ignorância afetada” (Le Code de Droit Canonique – Commentaire, Tom. III, ed. 8, 1952, n. 273)

Conclusão: ainda que, por absurdo, os papas conciliares sejam realmente papas ainda assim os sedevacantistas não podem ser considerados cismáticos, de acordo com a aplicação correta da sã doutrina.


NOTA 

(01) De acordo com a doutrina comum cismáticos são aqueles que se recusam a submeter-se ao Sumo Pontífice e também se recusam a estar em comunhão com os membros da Igreja sujeitos a ele;

Comentários

  1. Mas disseminar a doutrina de que não há papa e que a Sé está vacante, não é induzir a um cisma? individualmente, atp se pode ter suspeita sobre legitimidade de um papa, se este o é de fato, mas como não se tem autoridade alguma, principalmente se for leigo, para afirmar categoricamente que não há papa, ou que este não pode ser um papa verdadeiro, ensinar, divulgar e defender publicamente essa doutrina , creio que tornaria sim, um católico cismático, após arvora pra si, uma autoridade que não tem causa escândalo pra muitos fieis que reconhecem os papas o após o Vaticano II como verdadeiros papas.

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  2. Salve Maria, Professor Francisco,

    Em sua mensagem o senhor não aborda os ensinamentos dos especialistas colocados acima. Assim, o senhor pergunta se disseminar a doutrina de que a Sé está vacante não seria "induzir a um cisma".

    A respostá é "não", e é justamente isso que foi mostrado neste texto! Nele, os autores colocados estão ensinando que o fiel pode, tendo motivos justos e antes de qualquer sentença formal da Igreja, rechaçar a presença e inclusive a jurisdição daqueles que consideram falsos papas (Cardeal Caetano), recusar obedecer-lhes (Pe. Ignatius Szal) e negar sujeitar-se a eles (De Lugo).

    Além do que, prezado Professor Francisco, na Bula "Cum Ex Apostolatus Officio" o Papa Paulo IV assim coloca esta questão, primeiro referindo-se a um Papa legítimo que está ocupando o cargo e que hipoteticamente se desvia:

    "(...) Considerando a gravidade particular desta situação e seus perigos a ponto que o mesmo Romano Pontífice, que como Vigário de Deus e de Nosso Senhor tem o pleno poder na terra, e a todos julga e não pode ser julgado por ninguém, se fosse encontrado desviado da Fé poderia ser redarguido(...)".

    Depois, mais a frente, Paulo IV se refere ao herege que é “eleito” Papa, e a possibilidade que os fiéis tem de execrá-lo publicamente, antes mesmo de qualquer sentença formal da Igreja, e ainda que outros fiéis considerem aquele desviado verdadeiro Papa:

    "(...) os que assim houvessem sido promovidos e houvessem assumido suas funções, por essa mesma razão e sem necessidade de se fazer nenhuma declaração posterior, estão privados de toda dignidade, lugar, honra, título, autoridade, função e poder; e seja lícito, em consequência, a todas e a cada uma das pessoas subordinadas aos assim promovidos e assumidos (...) subtrair-se a qualquer momento e impunemente da obediência e devoção de quem foi assim promovido ou entraram em funções, e evitá-los como se fossem feiticeiros, pagãos, publicanos ou heresiarcas, o que não obsta que estas mesmas pessoas tenham que prestar sem embargo estrita fidelidade e obediência aos futuros bispos, arcebispos, patriarcas, primazes, cardeais ou ao Romano Pontífice, canonicamente eleito".

    Claríssimo, sim? Antes da sentença formal da Igreja o fiel é livre, tendo bons motivos para isso, para agir de acordo com a sua consciência. É como se encontrássemos alguém morto, um cadáver, apodrecendo há vários dias em uma casa abandonada: em uma situação destas não precisaríamos esperar o atestado de óbito (que só sairá trinta dias depois) para sabermos que estamos diante de um corpo sem vida. Sabemos disso antes desta declaração formal por parte da autoridade policial.

    E dito isso, pergunto-lhe: não sente o senhor o mau odor que exala das almas mortas pelos erros e pelas heresias destes falsos papas conciliares???

    Assim, ainda que os sedevacantistas estejam errados em seus julgamentos pessoais (que obviamente obrigam somente suas consciências) ainda assim eles não podem ser considerados cismáticos, porque lhes falta pertinácia, que é o atributo que faz de alguém herege ou cismático.

    Ainda sobre pertinácia podemos inverter a questão e perguntar o seguinte: e se os papas conciliares realmente não forem papas legítimos, será que os fiéis que os reconhecem podem ser considerados cismáticos por darem crédito a eles? O que a doutrina da Igreja diz sobre isso?

    Na mesma Bula o Papa Paulo IV responde esta questão nos seguintes termos:

    “(...) Incorrem em excomunhão ipso facto todos os que CONSCIENTEMENTE ousam acolher, defender ou favorecer aos desviados ou lhes deem crédito, ou divulguem suas doutrinas (...)”.

    Assim, só para dar um exemplo atual, se Francisco realmente não for Papa, e ele não o é, aqueles que o acolhem inocentemente não serão punidos por Deus por terem acolhido, defendido ou favorecido a um herege deste quilate, desde que o façam de boa fé.

    A Igreja é mãe, não madrasta, ela é lenta para punir, embora não possa ser enganada e nem nos enganar, porque é dirigida por Cristo.

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    Respostas
    1. Muito bom seus esclarecimentos. Tem esta Bula do Papa Paulo IV em Português?
      Eu da minha parte não defendo e nem promovo os ensinos dos papas conciliares.
      Mas não tabelem não afirmo publicamente que estes não são verdadeiros papas. Até porque causariam muito escândalo entre meus parentes e conhecidos. Deus saberá quando e como intervir e mostrar claramente pra todos que houve papas não papas ou verdadeiros. Creio nisso. Rezo para que a Igreja sais dessa Crise.

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    2. Prezado Professor Francisco, salve Maria.

      A Bula Cum Ex Apostolatus Officio pode ser encontrada aqui:

      https://princepsapostolorum.blogspot.com/2020/06/bula-cum-ex-apostolatus-officio-papa.html

      E o senhor me diz não defender e nem promover os ensinos dos papas conciliares. Ocorre que é necessário a um católico, para se salvar, aderir fielmente ao Vigário de Cristo na Terra, e isso significa promover todos os seus ensinamentos. Após morrer na cruz, o Papado é o instrumento pelo qual Cristo desejou facilitar a salvação da humanidade. Por isso o Papa é chamado de Sumo Pontífice, porque ele é a ponte entre a cruz de Cristo e os homens.

      Concordo que dizer que os papas conciliares são falsos papas causa escandalo, mas escandalo maior é dizer que não se pode promover os ensinamentos de um Papa. Isso é tão contrário a fé católica que não há quem não o veja.

      Para demonstrar isso que afirmo compilei inúmeros ensinamentos de papas, santos doutores e teólogos neste sentido. Por favor, não deixe de ler cada um dos ensinamentos e tire suas conclusões:

      https://princepsapostolorum.blogspot.com/2020/03/a-indefectibilidade-da-igreja-e-do.html

      Abraços,

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