Teria o Papa Pio XII denunciado o extermínio de judeus durante a II Guerra Mundial?
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Iremos, neste texto, apresentar trechos de três discursos do Papa Pio XII onde ele aborda o extermínio, durante a II Guerra Mundial, não apenas de judeus mas, também, de católicos e de outros grupos religiosos.
Primeiro, pouco após o início da II Grande Guerra em 1939, o Papa escreveu a Encíclica Summi Pontificatus (a primeira de seu pontificado) abordando o grande derramamento de sangue que já se constatava naquele momento:
"Nosso coração de pai estremece de profunda dor, quando antevemos tudo o que há de brotar dessas sementes de violência e de ódio, para as quais a espada está hoje escavando sulcos ensanguentados (...) A primitiva raiz do mal que assalta a sociedade moderna é a negação e a recusa de todas as leis fundamentais e universais da Moral humana concernentes à vida de todo indivíduo (...); é o esquecimento da lei da solidariedade humana, ditada por nossa origem comum e pela igualdade da natureza humana em todo ser humano, qualquer que seja a nação a que pertença (...) Nosso coração de pai está perto de todos os seus filhos com amor cheio de compaixão, perto principalmente daqueles que são maltratados, oprimidos, perseguidos (...) O sangue de inúmeros homens, mesmo dos que não combatem, ergue um gemido horrível" - Papa Pio XII – Encíclica Summi Pontificatus - 20/10/1939
Não obstante aos apelos do Papa, a Guerra, como sabemos, prosseguiu com uma violência nunca antes vista pela humanidade. No ano de 1942, quando o conflito ainda estava em sua metade, relatos de extermínio de judeus chegavam de vários lugares. Como é sabido, Pio XII mantinha uma rede de informantes que lhes confirmava estas informações. Assim, naquele Natal, em uma Radiomensagem, o Papa denunciou as centenas de milhares de vitimas que estavam morrendo ou a caminho de morrer por ocasião da Guerra:
“(...) a mensagem de Jesus, que é luz no meio das trevas: (...) promete misericórdia, amor e paz às multidões infinitas dos padecentes e atribulados, que veem dissipada a sua felicidade e quebradas as suas energias sob a rajada das lutas e dos ódios, dos nossos dias borrascosos. (...) a Igreja renegar-se-ia a si mesma, deixando de ser mãe, se se tornasse surda ao grito angustioso e filial que todas as classes da humanidade fazem chegar aos seus ouvidos. (...) O que em tempos de paz jazia comprimido explodiu, ao romper da guerra, numa triste série de atos em oposição com o espírito humano e cristão. Os acordos internacionais para fazer menos desumana a guerra, limitando-a aos combatentes, e para regular as normas da ocupação e do cativeiro dos vencidos, ficaram letra morta em várias partes; e quem é capaz de ver o fim deste progressivo pioramento? Este voto deve-o a humanidade aos inumeráveis mortos que jazem nos campos de batalha: o sacrifício da sua vida no cumprimento do seu dever e o holocausto a favor duma nova e melhor ordem social. Este voto deve-o a humanidade à infinda e dolorosa fila de mães, viúvas e órfãos que viram arrancar-lhes a luz, a consolação e o sustento da sua vida. Este voto deve-o a humanidade aos inumeráveis desterrados que o furacão desta guerra desarraigou da pátria e dispersou por terras estranhas, os quais podiam lamentar-se com o Profeta: ‘Nossa herança passou a estranhos, nossas casas a desconhecidos’ (Lm 5,2). Este voto deve-o a humanidade às CENTENAS DE MILHARES DE PESSOAS que sem culpa nenhuma da sua parte, às vezes só POR MOTIVOS DE NACIONALIDADE OU RAÇA, se veem destinadas à morte ou a um EXTERMÍNIO PROGRESSIVO. Este voto deve-o a humanidade aos muitos milhares de não-combatentes, mulheres, crianças, doentes e velhos, a quem a guerra aérea - cujos horrores nós denunciamos já repetidas vezes desde o princípio - tirou, sem discernimento ou com insuficiente inadvertência, vida, bens, saúde, casa, locais de caridade e de oração” – Papa Pio XII - Radiomensagem de Natal de 1942
Como escrito acima, quando este mensagem foi divulgada por rádio no ano de 1942, a Guerra ainda estava na metade. E já naquele ano o Papa Pio XII denunciava a morte de centenas de milhares de pessoas, verdadeiramente exterminadas “por motivos de nacionalidade ou raça”. Aqui, efetivamente, textualmente, oficialmente, o holocausto judeu era denunciado pela Santa Sé.
Posteriormente, após o fim da Grande Guerra, com a rendição dos alemães, uma nova mensagem transmitida no ano de 1945 daria ainda maior dimensão sobre o tamanho deste extermínio que atingiu não apenas judeus mas, também, católicos e pessoas pertencentes a outros grupos religiosos (embora, nestes casos, em menor escala). Aqui o Papa chega inclusive a falar sobre os temíveis campos de concentração, cuja existência e historicidade é abjetamente negada por muitos experts nos dias atuais:
“(...) nós mesmos, durante a guerra e, especialmente, em nossas mensagens de rádio, constantemente anunciamos as demandas e leis perenes da humanidade e da fé Cristã no que toca os métodos científicos modernos para torturar e eliminar pessoas frequentemente inocentes. (...) Se os governantes da Alemanha tinham decidido destruir a Igreja Católica mesmo no velho Reich, a Providência decidiu de outra maneira. As tribulações infligidas na Igreja pelo Nacional Socialismo foram levadas ao término pelo repentino e trágico fim da perseguição! Das prisões, CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO e fortalezas emanam, junto com prisioneiros políticos, também a turba daqueles, clérigos ou leigos, cujo único crime foi sua fidelidade a Cristo e à fé de seus pais ou o resoluto cumprimento de seus deveres como sacerdotes. Embora ainda não em posse das estatísticas completas, não podemos nos abster de lembrar aqui, como forma de exemplo, alguns detalhes dos abundantes relatos que chegaram até nós de padres e leigos que FORAM INTERNADOS NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO de Dacau e foram tidos dignos de sofrer reprovação pelo nome de Jesus [At 5, 41]. Em destaque, pelo número e dureza do tratamento dado a eles, estão os padres poloneses. De 1940 a 1945, 2.800 eclesiásticos e religiosos poloneses foram aprisionados NESTE CAMPO; entre eles estava um bispo auxiliar polonês que lá morreu de Tifo. No último Abril, só restavam 816, todos outros estavam mortos à exceção de dois ou três, transferidos a OUTRO CAMPO. No verão de 1942, 480 ministros de religião de língua alemã eram sabidos estarem reunidos lá; desses, quarenta e cinco eram Protestantes, todos os outros padres Católicos. Apesar do influxo contínuo de novos internados, especialmente de algumas dioceses da Bavária, Reno e Westfalia, seu número, como resultado do alto índice de mortalidade, no início desse ano não ultrapassava 350. Nem deveríamos nós passar em silêncio aqueles pertencentes aos territórios ocupados, Holanda, Bélgica, França – entre eles o Bispo de Clermont – Luxemburgo, Eslovênia, Itália. Muitos desses padres e leigos suportaram sofrimentos indescritíveis por sua fé e por sua vocação. Em um caso, o ódio dos ímpios contra Cristo chegou ao ponto da paródia, na pessoa de um padre internado, com barbante farpado, do escarnecimento e coroamento com espinhos de nosso Redentor" - Papa Pio XII - Mensagem aos Cardeais - 2 Junho de 1945
Assim, é inegável que Pio XII denunciou o extermínio de judeus durante a II Guerra Mundial, e não apenas deles.
Obs. ainda gostaria de acrescentar a seguinte informação: Dom Estêvão Bettencourt tratou, em um excelente artigo, da ajuda que o Papa Pio XII prestou aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Abaixo, colocaremos um pequeno trecho deste trabalho onde está sendo tratada a relação entre prelados católicos e lideres dos governos polonês, belga, holandês e eslovaco. Esteja atento as importantes informações, em especial aquilo que está colocado em negrito:
"Em outubro de 1942 o Cardeal-Primaz da Bélgica também dera ordens aos membros da Ação Católica de Bruxelas: 'É proibido aos católicos colaborar no estabelecimento de um Governo de opressão. É obrigatório, para todos os católicos, trabalhar contra tal regime'. Em consequência, registraram-se violentas represálias: a prisão, a deportação ou a esterilização de 110.000 judeus holandeses, e a prisão e deportação de todos os católicos holandeses de origem judaica, a confiscação de bens da Igreja e a extinção de todas as instituições de ajuda fraterna dos católicos tanto na Holanda e na Bélgica como nos demais países ocupados pelo nazismo. Tal era o preço pago por protestos contra a trama nacional-socialista.
É de notar que a última proclamação dos Bispos holandeses se fez ouvir em 15/5/1943 e que Pio XII se dirigiu aos Cardeais em 2/6/1943, aludindo indiretamente às represálias sofridas em consequência dos protestos da Igreja na Holanda. Aliás, já os primeiros protestos públicos de Pio XII no início da guerra ou em 1939, quando judeus e católicos poloneses foram trucidados, provocaram, de cada vez, duras represálias; em consequência, os próprios Bispos poloneses pediram a Pio XII que não voltasse à carga.
Escreveu Pio XII aos Núncios Apostólicos, seus representantes no estrangeiro: 'A prioridade das prioridades é salvar o maior número possível de pessoas'. Por efeito deste princípio, Pio XII exerceu influência junto aos chefes de Governo submetidos a Hitler; os seus protestos se acumulavam sobre a mesa de trabalho de cada qual deles.
Assim, por exemplo, aos 12/11/1941, Karl Sidor, Ministro eslovaco, recebeu do Papa a nota seguinte:
'Com profunda dor a Santa Sé foi informada de que na Eslováquia, país do qual quase toda a população honra as melhores tradições católicas, foi publicada uma lei, do Governo, de caráter racista e portadora de vários artigos que estão em flagrante contradição com os princípios do Catolicismo'.
Em março de 1942 houve outro protesto junto ao Governo eslovaco:
'A Secretaria de Estado de S. Santidade espera que medidas tão duras e injustas como as que foram tomadas contra pessoas de raça judaica não possam receber a aprovação de um Governo que se ufana de sua herança católica (...) A Santa Sé seria omissa perante Deus se não deplorasse esses atos e essas medidas que lesam gravemente os direitos da pessoa humana simplesmente por causa da sua raça (...) Não é verídico afirmar que os judeus deportados são enviados a campos de trabalho; a verdade é que ESTÃO SENDO EXTINTOS' (cf. Livia Rotkirchen, The destruction of Slovak Jewry 1963).
Aos 7/4/1942 o Núncio Apostólico referiu tais palavras do Ministro eslovaco Tuka:
'Não compreendo por que quereis impedir-me de livrar a Eslováquia dos judeus, esse bando de criminosos e bandidos'.
Respondeu então o Núncio:
'Não considero criminosos milhares de mulheres e crianças como aquelas que foram deportadas recentemente. Vossa Excelência está, sem dúvida, a par da sorte atroz que toca aos judeus deportados (...) O mundo inteiro a conhece. Mesmo que um Estado possa abolir as normas do Direito Natural e os preceitos do Cristianismo, não lhe é lícito (tendo em vista seus interesses próprios) menosprezar a opinião internacional ou o julgamento da história'.
Dois dias depois o Presidente eslovaco exprimia ao Núncio o seu pesar devido 'às palavras rudes do Primeiro-Ministro' e, para mostrar a sua boa vontade, suspendeu a ordem de deportação de 4.000 judeus eslovacos".
E o Papa Pio XII também denunciou o holocausto no seu discurso no Sacro Colégio de Cardeais em 2 de Junho de 1943: "Não vos surpreendereis, veneráveis Irmãos e diletos Filhos, se Nossa alma responder com solicitude particularmente pensativa e comovida às orações daqueles que se dirigem a Nós com olhar de súplica ansiosa, aflitos como estão, por causa de sua nacionalidade ou de sua linhagem, de desastres maiores e de dores mais agudas e graves, e por vezes destinadas, mesmo sem culpa, a constrangimentos exterminadores".
ResponderExcluirExcelente comentário, meu caro, obrigado por colaborar com o texto.
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