Florilégio com ensinamentos do Revmo. Padre Leonel Franca abordando o tema "Ética da Controvérsia" ou "Teologia Moral Controversista"

Amigos, salve Maria. 

Em tempos onde pessoas aparentemente desequilibradas psicologicamente parecem dominar as controvérsias católicas, deixo ensinamentos a respeito daquilo que podemos chamar de “ética da controvérsia” ou até mesmo “teologia moral controversista”, tirados das obras do Revmo. Padre Leonel Franca, um grande polemista que, sem perder a caridade, reduzia a pó os argumentos dos adversários. 

Apliquemos, pois, tão salutares ensinamentos em nossas controvérsias para que sejam realmente católicas, fiando-nos nos dez mandamentos divinos, que nos assegura que a mentira e o falso testemunho não ficarão impunes por parte daqueles que praticam tais abominações.

Segue o florilégio, publicado na esperança que possa servir a todos que a ele tiverem acesso. Boa leitura aos que por ele se interessarem!


"ÉTICA DA CONTROVÉRSIA" OU "TEOLOGIA MORAL CONTROVERSISTA"

“A impressão que nos fica, invencível, da leitura desses trabalhos é a de uma polêmica insincera. Não julgamos, já se vê, as intenções; afirmamos o que se depreende objetivamente do exame dos fatos. Os leitores, à vista dos autos, pronunciarão, com o conhecimento de causa, a sentença que lhes parecer verdadeira e justa. Os processos polêmicos do Sr. * podem reduzir-se facilmente a três:

1.º) reafirmar serenamente o afirmado sem se inquietar com os argumentos contrários que haviam invalidado as primeiras afirmações;

2.º) dividir a argumentação do adversário, focalizando uma ou outra prova que julga poder impugnar e envolvendo todas as outras na omissão de um silêncio incompreensível em quem busca desassombradamente a verdade;

3.º) opor a uma demonstração interna e imediata a opinião de algum autor contemporâneo que lhe favorece as posições escolhidas. E como nunca faltam citações em abono de qualquer opinião, o descaso sistemático do exame direto das fontes é o segredo de perpetuar indefinidamente as discussões” (Pe. Leonel FRANCA, S.J., O protestantismo no Brasil, 3.ª ed., Obras Completas – VII, Rio de Janeiro: Agir, 1952, p. 16, tópico: “Polêmica sincera?”).

“(…) insistência em repisar as mesmas acusações falsas, obstinação em não levar sinceramente em conta os fatos e argumentos já versados no debate. Com semelhantes processos, eternizam-se as discussões estéreis. A polêmica, em geral, mas principalmente uma polêmica assim, não tem nem pode ter para nós grandes atrativos. Se várias vezes temos voltado à carga, foi em cumprimento do dever superior de respeito e de amor a uma verdade que está muito acima das nossas preferências pessoais. Uma ausência de resposta poderia parecer da nossa parte uma traição ou uma covardia de quem deserta. Cumpre, porém, pôr termo a este esgrimir inútil” (Pe. Leonel FRANCA, S.J., O protestantismo no Brasil, 3.ª ed., Obras Completas – VII, Rio de Janeiro: Agir, 1952, p. 86.)

“Luta de ideias, diversidade de interpretações, duelo de argumentos e provas – tudo isto compreende-se numa polêmica; é, mesmo, o que lhe constitui a razão de ser e nobreza própria. Há algo de mais belo que a porfia de duas inteligências leais num esforço de assegurar o triunfo da verdade total? — Mas a deformação sistemática das doutrinas adversárias, a falsificação visível dos elementos de prova, o silêncio deliberado a envolver razões decisivas, a repetição cega e teimosa de argumentos de inconsistência mil vezes demonstrada lançam sobre uma discussão a suspeita irreprimível de uma insinceridade desoladora. Ao amor soberano da verdade, à submissão incondicionada às suas exigências incontrastáveis, alma das discussões elevadas, sucede, mal disfarçado, o espírito mesquinho de seita, o preconceito de venda nos olhos, o propósito obstinado de defender, a todo custo, as posições escolhidas e indefensáveis. — Este o triste espetáculo que nos é dado agora contemplar” (Pe. Leonel FRANCA, S.J., O protestantismo no Brasil, 3.ª ed., Obras Completas – VII, Rio de Janeiro: Agir, 1952, p.  275).

“Impõe ainda a mais rudimentar honestidade científica que se não repisem velhas acusações sem consultar as respostas que já lhes foram dadas. O escritor probo, que toma entre as mãos uma questão controvertida, começa por informar-se conscienciosamente do seu estado atual. Examina as objeções antigas e as soluções novas. Se estas são decisivas, proclama fechado o debate; se não o satisfazem, impugna-lhes sinceramente o valor. Calcar, porém, e recalcar acusações já mil vezes respondidas, não é trabalhar para a verdade, é assoldadar-se na propaganda do erro e da mentira” (Pe. Leonel FRANCA, S.J., Polêmicas, Rio de Janeiro: Agir, 1953, 2.ª ed., p. 144).

“Loisy pretendeu aclimar entre católicos esta indigna hipocrisia. ‘O fiel adere com sua intenção à verdade plena e absoluta figurada pela fórmula imperfeita e relativa.’ Autour d’un petit livre, p. 206. A intenção do fiel vai à verdade absoluta (como e por que via a conhece ele?) enquanto os seus lábios pronunciam palavras figuradas e simbólicas. Sendo assim, por que não podemos amanhã recitar simultaneamente uma profissão de fé luterana, anglicana, muçulmana, passando com os lábios pelo símbolo das palavras e aderindo com a intenção à verdade absoluta, incógnita e incognoscível? A Igreja Católica não conhece essas transações vergonhosas com a sinceridade. Não há ‘considerações pedagógicas’ que a seus olhos legitimem a mais abominável das hipocrisias, a hipocrisia religiosa. Quando Ela nos impõe o seu credo, exige dos nossos corações a adesão leal ao significado do que pronunciamos” (Pe. Leonel FRANCA, S.J., Polêmicas, Rio de Janeiro: Agir, 1953, 2.ª ed., p. 170).

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