A Igreja particular de Roma pode errar na fé?

Um dos maiores mistérios da crise atual refere-se a Igreja Particular de Roma, e não simplesmente ao Papado. O ensinamento que colocamos abaixo foi feito por São Roberto Belarmino em sua famosa obra "De Controversiis” e trata justamente sobre este tema tão espinhoso, e que coloca em xeque-mate o tradicionalismo e o conservadorismo, e que também parece colocar em xeque o sedevacantismo. 

Ora, os tradicionalistas creem, 'simpliciter', que a Igreja Romana errou gravemente no Vaticano II e que ela vem errando de lá para cá em praticamente tudo o que propõe aos fiéis. Assim, por exemplo, Dom Marcel Lefebvre afirmou "rezar para que a Roma moderna, infestada de modernismo, torne a ser a Roma católica e reencontre a sua Tradição bimilenar” - Dom Marcel Lefebvre - Carta a João Paulo II - 02 de junho de 1988

Alguns tradicionalistas chegam a aventar que os papas conciliares, ainda que papas legítimos, abriram mão de exercer seus magistérios, criando assim uma nova sub-divisão dentro do catolicismo. Estes podem ser chamados, mais propriamente, de "magisteriovacantistas". Porém, na Encíclica Satis Cognitum o Papa Leão XIII ensina que "Jesus Cristo instituiu na Igreja um Magistério vivo, autêntico e, ademais, perpétuo, o qual ele investiu da sua própria autoridade, revestiu do espírito de verdade, confirmou por milagres, e quis e severissimamente ordenou que os ensinamentos doutrinais desse Magistério fossem recebidos como os seus próprios", e também que todas as vezes que a palavra desse Magistério "declara que essa ou aquela verdade faz parte do conjunto da doutrina divinamente revelada, deve cada um crer com certeza que  isso é verdade", e isso porque "se de algum modo isso pudesse ser falso, daí se seguiria, o que evidentemente é absurdo, que o próprio Deus seria o autor do erro dos homens". 

Ora, ocorre que na Declaração Dignitatis Humanaeaprovada por Paulo VI e que versa sobre a Liberdade Religiosa, consta expressamente que a doutrina central proposta neste documento faz parte do conjunto da doutrina divinamente revelada, pois afirma que "o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer", e também que a Liberdade Religiosa conciliar está conforme a "dignidade humana e a revelação de Deus".

Isso significaria que se Paulo VI tivesse sido realmente Papa a doutrina referente a Liberdade Religiosa seria tão infalível quanto qualquer dogma, e isso de acordo com as regras de interpretação teológica, já que o Papa pode ensinar uma doutrina infalível por meio de um documento magisterial ordinário, como ensinaram os teólogos e os papas pós Vaticano I. 

Contra todas estas vertentes do tradicionalismo ensina Belarmino, Santo e Doutor da Igreja, referindo-se aos fiéis da Diocese de Roma, que "não pode acontecer que todos errem enquanto um corpo e que a Igreja Romana, como um todo, torne-se apóstata". 

Já os conservadores, ao defenderem corretamente que a Igreja Romana não pode errar jamais, deixam de levar em consideração uma série de fatos que demonstra, inequivocamente, que esta Roma que aí está é tudo, menos católica. Fecha-se os olhos àquilo que é manifesto! Por exemplo, a atual Roma aprovou, durante o Vaticano II, "direitos" que podem ser ditos diabólicos e absolutamente inexistentes, de acordo com a doutrina sempre ensinada pela própria Igreja Romana. 

Sem se aprofundar muito nesta posição conservadora que pretende 'negar o sol ao meio dia' apresentamos apenas duas alterações doutrinárias que demonstram aquilo que é capaz de fazer esta Roma que aí está. Primeiro, ao explicar o motivo pelo qual a Dignitatis Humanae foi aprovada, Paulo VI afirmou durante Audiência que "muitas páginas da história da Igreja merecem reservas e explicações", pois elas "vêm de um contexto histórico mais atento à mentalidade da época do que aos valores do Evangelho", afirmando ainda que o novo ensinamento é "mais coerente com este espírito do Evangelho". Assim, Paulo VI rasga e joga no lixo, atribuindo a uma determinada "mentalidade de época", todos os documentos promulgados magisterialmente a partir do século XVI até o Papa Pio XII para combater a Revolução Francesa, o que significa dizer que a Igreja Romana teria errado por séculos sobre esta questão (o que diria ele sobre a pena imposta por Moisés aos adoradores do bezerro de ouro?).

Mais recentemente Francisco aboliu, textualmente, a Pena de Morte, chegando a afirmar que a ela seria uma "medida desumana que, independentemente do modo como for realizada, humilha a dignidade pessoal". Ocorre que contrariar a Pena de Morte atenta contra a Regra da Fé, que é o Magistério Católico, e atenta também contra a própria indefectibilidade da Santa Igreja. Neste sentido, vejamos o que ensina o Cônego Emílio Silva, em sua obra 'Pena de Morte já' (a citação não é curta, mas merece ser lida para compreendermos a insustentabilidade da posição conservadora que defende corretamente que a Igreja Romana não pode errar mas que ao mesmo tempo nega que Francisco tenha errado gravemente nesta matéria e em tantas outras, inclusive caindo em heresia): 

“(...) a Igreja, não só por seus doutores, teólogos e moralistas de todos os tempos, unanimemente, afirmou a licitude da Pena de Morte, quando infligida pelos poderes públicos aos réus de graves delitos; como também, por seu Magistério infalível, condenou os hereges que negavam a licitude de tais execuções. Logo — a conclusão é inevitável  — a Igreja errou gravemente ao ensinar e defender a licitude do horrendo homicídio qualificado, que é o assassinato, crime este que se opõe à natureza, e que, portanto, não poderá ser lícito em nenhum lugar, tempo ou circunstância. Portanto, a Igreja não é santa nem infalível em seus ensinamentos, patrocinando erros gravíssimos. (…) Não pretendamos ser mais cristãos que Cristo e que sua Santa Igreja, nem mais delicados de sentimentos. Cristo foi quem disse: ‘Quem com ferro mata com ferro deve morrer’, e a Igreja defendeu sempre essa doutrina. Até o grande Pontífice que foi Pio XII estabeleceu-a no Estado do Vaticano (Giuseppe Maggiore: ‘La pena di morte esiste nello Stato dei Vaticano per la legge 7 gennaio, 1929.’ Principi di Diritto Penale, Bologna, 1937, 2.ª ed. tomo I, pág. 370). O sentimento cristão de compaixão pelos que sofrem sempre se compaginou com o amor à justiça. Estes dois sentimentos são atributo de todos os doutores e santos que no mundo têm sido nos dois milênios de vida cristã (Ibid., p. 112). (...) mesmo como sacerdote, sinto-me à vontade na posição de defensor da pena capital, pois que a meu lado formam todos os grandes sábios e filósofos que no mundo foram, e vindo ao cristianismo, ensinaram a liceidade e justiça da Pena de Morte, a começar por São Paulo, todos os santos padres e doutores da igreja, todos os teólogos, todos os canonistas, é doutrina contida no Magistério Ordinário da Igreja, exercido pelos papas no decorrer dos séculos, até o grande pontífice da paz, o saudoso Pio XII que, em suas alocuções, ao menos nove vezes se referiu com aprovação à pena de morte (Ver: Leme Lopes em Verbum, setembro de 1957) e manifestou-se favorável à sua restauração na Itália; mais ainda, no Estado do Vaticano manteve a pena capital estabelecida pelos tratados de Latrão, que, assinados por Pio XI, tinham sido redigidos principalmente pelo próprio Pio XII, ao tempo, Cardeal Pacelli…Repito, pois, que não me sinto mal ao lado de tão crescido número de santos, sábios e Papas e não pretendo dar-lhes lições de amor e mansidão, antes desejo aprender deles a verdade cristalina que de seus ensinamentos se desprende (Ibid., p. 181). (...) O máximo Doutor latino S. Agostinho, em sua obra principal ‘A Cidade de Deus’, formula em termos inequívocos a doutrina cristã sobre a pena máxima: ‘Não procederão contra este preceito que diz: Não matarás, aqueles que por mandato de Deus fizerem guerras ou, investidos de autoridade pública, ao estilo das leis, isto é, ao estilo do império da justíssima razão, castigarem os criminosos com a morte’ (Lib. I, Cap. 21). Desde então para cá não houve mais dúvida entre os doutores sobre a legitimidade e licitude da execução dos grandes malfeitores. Veio a confirmar esta doutrina DE MODO DEFINITIVO O MAGISTÉRIO ORDINÁRIO DA IGREJA, a qual, aliás, como afirma Overbeck, ‘jamais pôs em dúvida o direito do Estado de infligir a última pena’ (Alfred Frhr Von Overbeck, In Staatslexik, Friburgo in Br., 1912, V. 484). Tal direito do Estado, diz também Thamiry: ‘não foi jamais contestado na Igreja’ (DTC, X-II e col. 2504). Houve sim, durante os dois milênios de vida cristã, hereges que negaram esse direito ao Poder Público, como os albigenses ou cátaros, os anabatistas e também, em nossos tempos, alguns neomodernistas ou progressistas, cuja nota distintiva é a desestima, e em vários deles, a repulsa formal do Magistério da Igreja. Contra o erro dos albigenses pronuncia sentença o grande Pontífice Inocêncio III e depois Leão X (DS 795 [425]; 1483 [773]). Por sua vez Pio XII manifestou-se reiteradamente contra os erros modernos a esse respeito. É tão claro e perentório o Magistério da Igreja a respeito da licitude da Pena de Morte que já no século XVII o famoso moralista bávaro Sporer a dava como de fé católica: ‘Licitum est occidere malefactores. Certum de fide’ (Patricio Sporer, Theol. mor. super Decalogum, Venecia, 1704, II, 103). E outro moderno teólogo, também alemão, na mesma linha dogmática de Sporer, logo para fazer constar que as legislações de todos os povos estão de acordo em outorgar ao poder soberano ‘o direito de punir com a morte os crimes da pior espécie — acrescenta — nenhum teólogo católico negará aos soberanos este direito’ (Joh. Ev. Pruner, Katholische Moraltheologie, 3.ª ed., Friburgo, 1902, I, 530-33). Com plena convicção dogmática, H. Lio assevera terminante: ‘Não é lícito a um católico sustentar que a pena capital é intrinsecamente imoral’ (H. Lio, in Dict. Mor. et Can., Roma, 1966, vol. III, p. 769)” - Pe. Dr. Emílio Silva - 'Pena de Morte Já' - Rio de Janeiro – páginas 18-19.

Assim, no texto que vocês lerão abaixo o próprio Santo Doutor vai ensinar que "na Igreja Romana sempre haverá de existir um bispo ensinando de uma forma católica e um povo crente de uma forma Católica". Ora, se é assim (e de fato é), se os papas conciliares são papas legítimos, se Francisco é realmente Sumo Pontífice, se ao menos um dos bispos da Diocese de Roma ensinará de forma católica, onde este homem está? Se na Diocese de Roma sempre haverá um povo que jamais cairá no erro grave e muito menos na heresia, onde ele está agora? Os conservadores poderiam nos apontar estas pessoas? Ou também eles irão afirmar, junto com os papas conciliares e sob risco de perderem a fé, que que a Pena de Morte realmente é intrinsecamente má, que os documentos pós Revolução Francesa realmente continham "mentalidade de época" e que o Estado deve regulamentar civilmente os casamentos entre pares do mesmo sexo? 

Assim, de acordo com aquilo que vemos desde o Vaticano II até os dias atuais, as posições tradicionalista e conservadora simplesmente são insustentáveis, a menos que se queira reinterpretar a fé, o que de fato a esmagadora maioria dos membros destas duas posições fazem ao defenderem suas teses. 

Dito tudo isso, pergunta-se: por que então se afirma que o ensinamento de São Roberto Belarmino parece colocar em xeque-mate o sedevacantismo, e não o coloca de fato? Resposta: porque o sedevacantismo é a única posição cujos propagadores não inventam doutrina e não afirmam nada que a Igreja não tenha afirmado nos últimos dois mil anos. Estudando os teólogos, entendem o que disseram as principais correntes, até mesmo as divergentes, e explicam que nada do que foi dito no passado sobre a Igreja Católica pode ser aplicada a igreja conciliar, esta prostituta. Claro que ao agir de maneira tão intransigente e jamais negociar a fé só para se sentir mais confortável o sedevacantista tem como principal objeção (a qual ele não nega a força) a visibilidade da Igreja. Onde está então a Igreja Romana, que não pode errar? Ela está em Roma, nós respondemos, embora "eclipsada", como tantos escatologistas aprovados ensinaram que ela ficaria um dia.  

Os ensinamentos das Sagradas Escrituras propostos por papas, santos doutores e teólogos, bem como inúmeras profecias feitas pelos melhores católicos nos últimos séculos, entre eles até mesmos alguns santos, afirmam de maneira uníssona que no fim dos tempos haveria uma apostasia geral que tornaria a Igreja praticamente inacessível. Ensinaram que os sacramentos seriam como que 'varridos da Terra' por um período de tempo e que, inclusive, uma falsa igreja com falsos sacramentos "substituiria" a verdadeira. Afinal, Deus permitiria que Lúcifer vencesse, provisoriamente, os santos (Ap. 13, 7). Porém, ao invés de desesperar-nos, o próprio Cristo afirma ser esta ocasião para "a constância e a confiança" (Ap. 13, 10), e não para adaptar doutrina de sempre ao momento atual, momento este que que é enigmático e misterioso. 

Vivemos, seguramente, diante do Mistério da Iniquidade, que já está em ação, e que teve início a partir do momento em que desapareceu aquele que o detinha, e quem detinha o Mistério da Iniquidade era o Papa (II Tess 2, 7 e seguintes). De São Pedro a Pio XII era impossível a chegada do Anticristo, porque havia quem o impedia. Agora, porém, eis que ele está as portas e bate, querendo entrar, e os papas conciliares são todos os seus precursores, sendo que cada um dele agiu e age como uma espécie reversa de "São João Batista", porém, do inferno, pois aplaina a chegada daquele que virá com objetivo de dominar o mundo. 

Porém, São Paulo no alerta para ficarmos "firmes" e conservarmos os ensinamentos magisteriais católicos (II Tess 2, 15), aqueles oriundos por palavras ou por cartas, a verdadeira tradição eclesiástica, oral e escrita, e não para inventarmos doutrina nova, não para negarmos aquilo que é evidente e que salta aos olhos, não para acharmos que a situação não pode ser tão enigmática e dramática como verdadeiramente é, etc...

E sendo tudo desta forma, e de fato é, constata-se racionalmente que o tradicionalismo e o conservadorismo tem contradições, erros graves e, talvez, até heresias, e como tais não podem ser posições lícitas diante desta crise. Já o sedevacantismo tem dificuldades, as mesmas que os fiéis já espalhados pelo mundo tiveram no Sábado Santo, quando poucos bispos, a saber, apenas 11, e eles sem um Papa para guiá-los, não sabiam onde aqueles bispos estavam, apenas sabiam que eles estavam, pois a promessa de Cristo não pode falhar. E quem nos garante que nos últimos tempos o número de bispos não chegaria as proporções encontradas no Sábado Santo? Oremos, vigiemos e esperemos, que a Igreja, imitando em tudo seu Divino Mestre, "ressuscitará" quando menos esperarmos. 

Ainda em tempo: realça-se que o texto abaixo foi retirado deste endereço, onde consta que Monsenhor Joseph Clifford Fenton ensina que o ensinamento de Belarmino seria “muito mais do que mera opinião teológica”, acrescentando que a proposição que afirma que “a Igreja da cidade de Roma pode cair em erro” é uma das teses de Pedro de Osma condenadas formalmente pelo Papa Sisto IV como errôneas e como contendo heresia manifesta (Mons. Joseph Clifford FENTON, A Igreja Local de Roma, dez. 1950).

Durma-se com um barulho destes!!! Coloquei em negrito aquilo que contraria diretamente tanto os tradicionalismos atuais como o conservadorismo, e que sob vários aspectos parece contrariar também o sedevacantismo. 


CAPÍTULO IV: Sobre a Igreja Particular de Roma

 

A SEGUNDA PROPOSIÇÃO. Não só o Romano Pontífice não pode errar na fé, mas até mesmo a Igreja particular de Roma não pode errar. 

Neste lugar é mister salientar que o poder da Igreja Romana na fé deve ser recebido em um sentido, e o poder do Pontífice em outro. O Papa não pode errar a partir de um erro judicial, isto é, enquanto ele julga e define uma questão de fé, mas a Igreja Romana, isto é, o povo e o clero romano, não pode assim errar por um erro pessoal, de tal forma que todos iriam errar e não haveria fiéis na Igreja Romana aderindo ao Papa. Mesmo que os indivíduos possam errar por conta própria, ainda assim não pode acontecer que todos errem enquanto um corpo e que a Igreja Romana, como um todo, torne-se apóstata

Além disso, que a Igreja Romana não pode errar na maneira explanada, pode ainda ser entendido de duas maneiras: por um lado, que não pode errar enquanto a Sé Apostólica permanecer em Roma; seria de outro modo, se a Sé fosse transferida para outro lugar. Na segunda maneira, que ela não pode errar ou desertar simplesmente porque a Sé Apostólica nunca pode ser transferida de Roma para outro lugar. E, de fato, seguindo o primeiro sentido, a nossa proposta é muito verdadeira e talvez tão verdadeira quanto a primeira proposição relativa ao Papa. Pois os autores que citamos, como Papa Lúcio e Félix, mártires, Ágato e Nicolas, confessores, e do mesmo modo Cirilo e Rufino, todos afirmam que não só o Papa, mas também a Igreja Romana, não pode errar. 

Além do mais, São Cipriano diz: “eles se atrevem a navegar e levar cartas de cismáticos e blasfemos para a cátedra de Pedro e à Igreja principal, etc... eles nem pensaram que estes são romanos, cuja fé foi elogiada na pregação pelo Apóstolo, e entre os quais não é possível a perfídia ter entrada”[1] São Jerônimo disse: "Sabe, porém, que a fé romana, louvada pela voz do Apóstolo, não admite artifícios desta natureza, e que, mesmo se um anjo anunciasse diferentemente do que foi pregado uma vez por todas, a fé sustentada pela autoridade de Paulo não poderia mudar". São Gregório Nazianzeno, em um poema sobre sua vida, no meio deste, disse: "A antiga Roma tem, desde os tempos imemoriais, professado a fé correta, e sempre manteve-a; assim como é apropriado para a cidade que preside o mundo inteiro, sempre detém a totalidade da fé de Deus". 

Eu acrescento ainda o testemunho de dois Papas, que também foram condenados por hereges, mas foram recebidos com a maior honra pelos católicos. Um deles é o Papa Martinho VI, que na Bula que aprovou no Concílio de Constança, fez registrar que eles devem ser considerados como hereges, pois que pensavam de forma diferente da Igreja Romana acerca dos Sacramentos ou dos artigos da fé.

O outro é o Papa Sisto IV, que pela primeira vez por meio do Sínodo de Alcalá, em seguida, por si mesmo, condenou os artigos de um determinado Pedro de Oxford, um dos quais afirmava que a Igreja da cidade de Roma poderia errar. E, embora tal pareça ser entendido particularmente em razão do Papa, todavia, a Igreja Romana não é somente o Papa, mas o Papa e as pessoas, portanto, quando os Padres da Igreja ou os Papas dizem que a Igreja Romana não pode errar eles querem dizer que na Igreja Romana sempre haverá de existir um bispo ensinando de uma forma católica e um povo crente de uma forma Católica

Mas seguindo o segundo sentido, que a Igreja Romana não pode desertar, é certamente piedoso e uma opinião muito provável; ainda que não seja tão certo que o contrário possa ser chamado de herético, ou manifestamente errôneo, como John Driedo ensina.[2] O fato é, não é completamente de fide que a Igreja Romana não possa ser separada da Sé Apostólica uma vez que nem as Escrituras, nem tradição, tem a Sé Apostólica de modo fixo em Roma, que não possa ser transferida para outro lugar. E todos os testemunhos dos Papas e Padres da Igreja (que dizem que a Igreja Romana não pode errar) podem estar relacionados com a Igreja Romana, desde que permaneça naquela Sé Apostólica, mas não absoluta e simplesmente. 

Da mesma forma é ainda uma opinião piedosa e muito provável que a cátedra de Pedro não possa ser separada de Roma, e, portanto, a Igreja Romana absolutamente não pode errar ou desertar. Está provado, em primeiro lugar a partir do fato de que a Sé Apostólica manteve-se em Roma por um período tão longo, a despeito das infinitas perseguições, bem como das oportunidades para mudá-la para outro lugar. A primeira razão oferecia uma maior oportunidade de transferir a Sé Romana para outro lugar nos tempos dos imperadores pagãos. Perturbava-os muito que a Sé Apostólica estivesse em Roma, e por isso sempre que eles ouviam que um novo bispo tinha sido sagrado, ele era morto ou enviado para o exílio. Daí Cipriano elogiou a constância do Papa Cornélio: “Quanta virtude recebeu seu episcopado! Quanta fortaleza de ânimo, quanta firmeza na fé! Sentou-se intrepidamente na cátedra episcopal de Roma, em um tempo em que um perigoso tirano lançou-se contra os sacerdotes de Deus de forma lícita e ilícita, e que lhe era mais suportável e tolerável ouvir que um príncipe rival tinha se elevado contra de que em Roma se tinha sido constituído um sacerdote de Deus.”[3]

A próxima oportunidade para transferir a Sé ocorreu no tempo dos godos, especialmente durante a época de Inocêncio I, quando Alarico tomou Roma, despojou-a e queimou-a, como Jerônimo relata em sua carta à Principia sobre a morte de Marcela. Em seguida, na época de Leão I, quando Genserico novamente tomou Roma e despojou-a, como Biondo escreve;[4] período em que Roma permaneceu, por algum espaço de tempo, desabitada. Novamente no tempo do Papa Vigílio, Totila, que tendo posto abaixo grande parte das muralhas e queimado praticamente todas as casas, quase derrubou Roma, deixando a cidade desolada, pois nenhum homem ou mulher nela permaneceu, como Biondo escreve na mesma obra.[5] Depois disso, em todo o tempo dos lombardos, os Pontífices Romanos estavam na maior miséria, como fica claro em muitas epístolas de São Gregório. No entanto, os Pontífices Romanos jamais pensaram em mudar seu Episcopado de Roma. 

A terceira ocasião para transferência da Sé foi no tempo de S. Bernardo, por conta da perseguição dos cidadãos de Roma. Por muitos anos, os cidadãos romanos perturbaram tanto seus Pontífices que eles foram muitas vezes obrigados a deixar a cidade para o exílio, como fica claro tanto a partir de historiadores e de S. Bernardo.[6] A quarta vez foi quando os pontífices romanos permaneceram na França por 70 anos. Em primeiro lugar, embora tenham passado esse tempo longe de Roma, com toda a cúria, porque, eu pergunto, eles não transferiram a Sé? Por que não trocar o Episcopado Romano para o de Avignon? Uma vez que tiveram tantas oportunidades para transferi-la, mas ainda assim a Sé manteve-se em Roma por mais de 1500 anos, e é muito provável que ela de forma alguma possa ser transferida. 

Além disso, a mesma coisa pode ser comprovada pelo fato de que o próprio Deus ordenou que a Sé Apostólica de Pedro fosse estabelecida em Roma. Os homens não podem mudar a seu bel prazer algo que Deus ordena. O Bem-aventurado Marcelo, Papa e mártir, em uma epístola ao povo de Antioquia, dá testemunho desta ordem quando ele diz que Pedro, a mando de Deus, transferiu a sua sede de Antioquia a Roma. Santo Ambrósio também testemunha isto em seu discurso na entrega das basílicas, onde ele relata que Cristo mesmo quis que Pedro devesse morrer em Roma. E por esta razão que Cristo, ao cruzar com Pedro fugindo da cidade, Ele [Cristo] disse: "Eu estou voltando para Roma para ser crucificado novamente". É um sinal manifesto que Deus queria confirmar a Sé de Pedro em Roma, por meio de sua morte. O Papa São Leão I diz também estar ligado a isto: "... trazias o troféu da cruz de Cristo à amarga Roma onde, por divina predestinação, esperavam-te a honra da autoridade e a glória do martírio".[7] Alguém dirá que este argumento parece ser prova de que a Sé não pode ser transferida de Roma. Posto que se é da fé, preceitos divinos não podem ser alterados pelos homens. Se, pois, Deus ordenou a Sé ser constituída em Roma, parece ser de fide que não pode ser transferida para qualquer outro lugar. 

Eu respondo: tal não decorre, pois Marcelo e Leão não definem este assunto como se fosse de fide; antes eles mencionam como história. Além disso, eles não são testemunhos de fide dos Pontífices, mas apenas decretos. Em seguida, o que eles mesmos dizem, que por ordem do Senhor, Pedro transferiu sua Sé para cidade, pode ser entendido de duas maneiras: 1) porque o Senhor ordenou isso quando Ele apareceu a Pedro e posteriormente de fato foi dito por preceito divino que a Sé de Pedro foi constituída em Roma; ou 2) que Cristo de fato não ordenou claramente, mas que ele disse que foi comandado porque Pedro o fez por inspiração de Deus, assim como todos os decretos e preceitos da Igreja podem ser ditos divinos, que ainda são, contudo, mutáveis

Acontece que, mesmo que fosse estabelecido que Cristo ordenou a Pedro que ele deveria colocar sua Sede em Roma, ainda não se seguiria imediatamente que a ordem para fazer isso fosse imutável. Porque não há certeza como Cristo ordenou a Pedro que ele deveria estabelecer sua Sede em Roma, portanto, não é de fide, preceito divino e imutável, que a Sé foi constituída em Roma. Ainda assim, como dissemos, é muito provável e é piamente acreditável. Também não é contrário que no tempo do Anticristo Roma deva ser destruída e queimada, como se deduz do capítulo XVII do Apocalipse. Pois tal não se sucederá senão ao fim do mundo e, além disso, o Sumo Pontífice é chamado de Romano Pontífice e ele sobreviverá mesmo que ele não venha viver em Roma, assim como no tempo de Totila, o rei dos godos, como dissemos acima. Além disso, Agostinho e muitos outros, ao comentarem sobre essa passagem do Apocalipse, ela não diz que Roma teria de ser queimada, mas a multidão dos ímpios, que é a cidade do diabo.


[1]Libro I, epistola 3


[2]De Ecclesiasticis dogmat. et Scripturis , lib. 4, cap. 3, par. 3.


[3] Lib. 4, epist. 2.


[4] Lib. 2 decadis 1.


[5] Lib. 6.


[6] Epistola 242 ad populum Romanum; epistola 243 ad Conradum imperatorem.


[7] Serm. 1 de Natali Apostolorum Petri et Pauli. 


FONTE

De Controversiis On the Roman Pontiff. Vol. II: Books 3-5. St. Robert Bellarmine, S. J. Translated from the Latin by Ryan Grant. First Edition, March 2016 Mediatrix Press <http://www.mediatrixpress.com>, pp. 204-208 



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